Tem espaço para a saúde mental nas agências?

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Opinião

Tem espaço para a saúde mental nas agências?

Entre novos discursos e velhos hábitos, a cultura da noite virada com pizza está cada vez mais fora de moda, mas ainda veste boa parte da rotina publicitária


2 de março de 2022 - 14h17

(Crédito: Solarseven/ Shutterstock)

Dia desses ouvi em uma roda de conversa que o mercado publicitário é um rolo compressor e achei uma das melhores definições pro nosso dia a dia. Desde o início da minha carreira, o ritmo das agências nunca fez sentido pra mim. Mesmo quando era nova e cheia de energia, jamais achei atraente a ideia de perder momentos com as pessoas que eu amo pra impressionar gestores que acham que virar a noite comendo pizza e abrir mão de qualquer modelo de vida pessoal é sinônimo de ser bom profissional.

Não entendia naquela época e ainda hoje, quase 20 anos depois, continuo sem entender. Quando perdi minha mãe aos 23 anos e quase fiquei viúva aos 29, fez ainda menos sentido. Não teria valido a pena perder momentos com eles por trabalho nenhum. E olha que eu amo demais trabalhar, amo o que eu faço, mas as diferentes áreas da vida precisam ter seu espaço e seu tempo.

Saúde mental tem sido um assunto cada vez mais comum dentro e fora das empresas e quanto mais eu falo sobre o tema, mais me questiono sobre os modelos “tradicionais” da publicidade. Perdi a conta de quantos colegas vi indo para hospitais achando que estavam morrendo durante crises de ansiedade – alguns eu mesma levei – e quantos abriram mão de tudo porque o limite chegou.

Durante a pandemia os casos se multiplicaram, você também teve a impressão que o volume de trabalho saiu de controle? “Fulano foi afastado por burnout” nem gera mais reações, estranho é não ter passado por um. Triste e preocupante.

Quanto mais eu penso que preciso fazer algo pra mudar como as coisas “sempre foram feitas”, mais percebo o quanto a cultura do rolo compressor é institucionalizada. A dinâmica dentro das agências dificilmente leva em consideração o fator humano. Considerar horas extras – muitas vezes madrugada adentro – e finais de semana dentro do prazo negociado dos jobs é comum, por exemplo. Ignorar a quantidade crescente de pessoas com crises ansiosas e que desistem da profissão por esgotamento também.

Vejo uma quantidade enorme de empresas discursando a favor do equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal e incentivando condições de trabalho completamente desequilibradas em seus fornecedores, seja pelo processo de concorrências (muito distorcido do que um dia foi e que valeria um texto só pra ele), seja pelos prazos impossíveis de serem executados com qualidade dentro do horário comercial.

Muitas agências incluíram no seu pacote de benefícios suporte profissional à saúde mental, o que é bem relevante, mas que não passa de uma medida paliativa se o cuidado de base não existe. Atropelar e prestar socorro não faz com que o atropelamento seja aceitável. Precisamos repensar o sistema, precisamos atualizar a mentalidade da gestão antiquada, precisamos ajustar a dinâmica entre as partes da cadeia produtiva.

Quero fazer a minha parte, mas ainda não sei bem como começar. Talvez publicar um artigo sobre o assunto já tenha sido um grande passo. Tentar proteger os meus times de potenciais esgotamentos é outro. Não é fácil, confesso, ainda tenho medo do julgamento dos publicitários conservadores. Medo de que colocar as pessoas em primeiro lugar seja disruptivo demais, mesmo em um mercado que exige inovação o tempo todo.

Quando comecei minha carreira, era ponto negativo ficar pouco tempo em um emprego porque isso me fazia parecer instável, hoje é como o mercado funciona. Talvez a ideia de criar um ambiente saudável nas agências ainda pareça estranha nos tempos atuais, mas as mudanças têm acontecido cada vez em maior velocidade.

Continuo diariamente bancando escolhas nas quais eu acredito e tentar mudar o formato rolo compressor que temos hoje é uma delas. Quero acreditar que em um futuro próximo as agências de publicidade não sejam mais um modelo corporativo que deixa as pessoas doentes, mesmo que uma grande parcela dos publicitários que eu conheço esteja desiludida.

Perdi as contas de quantas vezes abordei o assunto e ouvi que “sempre foi assim” como justificativa para continuar sendo. Se o mundo hoje fosse como sempre foi, eu, como mulher, nunca teria espaço para expressar minha opinião publicamente, como estou fazendo agora. Provavelmente nunca seria uma líder na área de criação, como sou hoje.

O que podemos fazer dentro do nosso microambiente para que os processos sejam diferentes? Acredito que juntos temos o poder de causar um grande impacto positivo. Um passinho de cada vez, um publicitário de cada vez, uma agência de cada vez. Acredito que podemos ser a geração responsável pela maior revolução na história da publicidade, a geração que cansou de ver seus dias acabarem em pizza ou em afastamento psiquiátrico.

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