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Opinião

Tenho para mim que liderar se parece com viver

É urgente ser mais gente, ser de verdade e olhar para os estragos que tanta exclusão, preconceitos e privilégios causaram no mercado, na qualidade dos trabalhos, na sociedade e, sobretudo, nas pessoas


8 de abril de 2022 - 8h54

(Crédito: Mary Long/Shuttersotck)

Não vejo como fluir diante da existência sem se lançar em novos contextos, sem cometer erros e aprender com eles. Também não creio em fórmulas e receitas que possam nos garantir uma jornada vazia de turbulências.

Sou uma mulher de 46 anos e tenho maturidade o suficiente para saber que o aprendizado da liderança, como todos os outros, vem sempre à conta-gotas e nunca como queda d’água. É aos poucos que aprendemos a organizar os sentimentos ambivalentes que nos povoam sem pedir licença. Para mim, o maior deles é o medo de errar versus a coragem necessária para fazer o que deve ser feito.

Em tempos de tanta incerteza, precisamos exercitar a generosidade acolhendo, nutrindo e inspirando quem está ao nosso lado. É justamente nesses tempos duros que se faz ainda mais importante liderar com empatia, compaixão e humanidade. É urgente ser mais gente, ser de verdade e olhar para os estragos que tanta exclusão, preconceitos e privilégios causaram no mercado, na qualidade dos trabalhos, na sociedade e, sobretudo, nas pessoas. Lideranças atuais precisam se comprometer com reparações históricas.

A liderança acontece no gerúndio. Por acreditar nisso, espero seguir aprendendo, tomando posse do meu lugar de fala e, muitas vezes, permanecendo em silêncio por reconhecer o poder da escuta ativa. É fundamental ouvir com atenção e cuidado, garantindo que um time seja reconhecido e valorizado individual e coletivamente.

Líderes que não ouvem, que não sabem ler as entrelinhas e que não criam vínculos emocionais, perdem o que há de mais vital nas empresas: seus talentos. Também sinto que é preciso estar à vontade para dizer “não sei”. Aceitar nosso “não saber” é um grande passo para aprender e transformar realidades.

Sempre foi assim? Sempre tive esta visão sobre a liderança? Não. Já cometi muitos erros no meu processo de transformação e crescimento. Sei que ainda vou errar bastante. Mas espero errar menos e errar diferente.

Se existe um legado que quero deixar para aqueles que estão e estiveram ao meu lado, é o de ter ajudado a mudar ambientes ainda tão imersos na bolha. Eu não acredito em lideranças verticalizadas e pouco colaborativas, que colocam as pessoas em caixas. Acredito em espaços abertos no coração e na mente, para que as trocas inspiradoras possam nos tocar, preencher e transbordar.

Minha crença está no compartilhamento da experiência, da vida, das vulnerabilidades e forças. Ela está na liderança descentralizada e inclusiva que permite que cada um, dentro do seu lugar de fala, possa liderar um projeto, um movimento, uma conversa, uma transformação, um trabalho, um time.

Outro dia uma pessoa que prezo muito me perguntou se eu não tinha medo das responsabilidades da liderança. Eu disse que sim. Afinal, não é simples formar, abraçar e cultivar ambientes diversos com pessoas completamente diferentes e necessidades distintas. Isso demanda estudo, envolvimento, empatia e firmeza para tratar de assuntos difíceis. Mas se estou aqui agora, farei tudo o que puder para ser parte da solução. Tenho certeza de que não estou sozinha. Vejo, como nunca, pessoas reunidas em torno das pautas necessárias e da ações afirmativas que irão construir novas realidades e romper com crenças limitantes por meio de um olhar atento, diverso e justo.

Ainda tem muito a ser feito, mas não há nada que nos impeça de continuar abrindo novos caminhos por onde quer que coloquemos nossos pés e nossa força. Nada que consiga tirar de nós a sede que temos pela transformação de realidades, por meio de uma liderança mais humana, afetiva e inclusiva.

Finalizo com uma frase da Brené Brown, uma mulher que muito me inspira: “Brave leaders are never silent around hard things”.

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