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Opinião

A importância da Julia Roberts de Erin Brockovich, e não de Pretty Woman

Personagens como a advogada interpretada pela atriz no filme "Erin Brockovich" levaram mais garotas à faculdade de direito do que qualquer campanha de matrículas


27 de abril de 2022 - 11h49

(Crédito: MariaKGraphicDesigner/ Shutterstock)

Em 2016, participei de um evento da revista Fast Company em Los Angeles e assisti à Geena Davis apresentando uma pesquisa sobre Gender in Media realizada pelo seu instituto. O foco era a importância do “role model” na indústria do cinema e do entretenimento em geral. “If she can see it, she can be it”. A pesquisa comprovava com fatos que personagens como a advogada interpretada por Julia Roberts no filme “Erin Brockovich” levaram mais garotas à faculdade de direito do que qualquer campanha de matrículas. 

Seis anos depois, as estatísticas continuam baixas: mulheres ainda são a minoria dos papéis principais no cinema e, atrás das câmeras, também: 7% dos diretores, 13% dos roteiristas e 20% dos produtores são mulheres, segundo o mesmo Instituto Genna Davis (dados de 2020, USA). “Turning Red”, que estreou mês passado, pasmem, é o primeiro filme da Pixar dirigido solo por uma mulher! O nome dela: Domee Shi. A Pixar tem 36 anos.  

O mesmo se aplica à indústria em geral. Entre as empresas listadas no S&P 500, Bolsa de Valores dos Estados Unidos, 30 são lideradas por mulheres. Só 30 entre 500.  

Na lista das 500 maiores da Fortune, 41 empresas são lideradas por mulheres. Apenas 41 de 500. 

Quando pensamos no mercado de comunicação no Brasil, não dá nem para encher os 10 dedos das mãos. Triste, né? 

Somos mais da metade da população global. Essa proporção não está nem de longe refletida nos cargos máximos de lideranças nas empresas. O que dirá nas agências de comunicação. Logo nós, mulheres, que somos responsáveis pelo consumo de 96% dos lares, mesmo chefiando apenas 37% deles (dados da Nielsen, 2018). 

Manchetes comemoram um certo avanço, mas há mesmo o que comemorar? Movimentos como 3% Conference, MeToo e More Grls no Brasil (parabéns, Laura e Camila) trazem o assunto para as mesas de discussão. Porém, precisamos urgentemente de mais “role models”. Precisamos de mais Maria Lauras, Lucianas, Marcias, Camilas, Licas, Danielas, Anas, Gabrielas e Alines.  

Uma ação prática para acelerar a mudança no Brasil poderia ser o apoio de headhunters nas contratações de novos líderes. Vejo isso acontecendo no mercado americano. Nos últimos dois anos, várias mulheres assumiram como CEO entre as maiores agências dos EUA: Kelly Graves na FCB Chicago, Emma Armstrong na FCB NY, Andrea Diquez na DDB Chicago, Darla Price na DDB NY, Wendy Clark na Dentsu Global, Monna Gonzalez e Natalie Nymark na Pereira O’Dell, Erin Riley na TBWA/Chiat Day/LA, entre outras.  

Existe uma expressão que diz “don’t fish from the same pond”. Ou seja, se os líderes de hoje escolherem líderes parecidos com eles, não iremos mudar essa realidade tão cedo. Aí entra o pragmatismo americano que ajuda a estabelecer processos, ferramentas e novos critérios na hora de buscar perfis diferentes. E de empresas especializadas que encontram talentos e ajudam a profissionalizar a busca

Porque, no fim, não parece muito criativo que logo a indústria da criatividade não use uma solução diferente para resolver os mesmos problemas, não é mesmo? 

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