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Demandas por bem-estar acendem alerta ao mercado de trabalho

Brasil bate novo recorde em afastamentos por saúde mental, destacando necessidade por planos de ação concretos

i 6 de fevereiro de 2026 - 18h18

Na última semana, o Ministério da Previdência Social indicou que, apenas no ano passado, o Brasil registrou mais de 500 mil afastamentos do trabalho por razões de saúde mental. Esse é o segundo recorde já atingido no mercado de trabalho.

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Com atualizações da NR-1, espera-se que empresas apresentem histórico de monitoramento e gestão de saúde mental e bem estar dos colaboradores (Crédito: inspiring.team/shutterstock)

O primeiro aconteceu em 2024, com pouco mais de 470 mil afastamentos. O dado já indicava um aumento expressivo em relação a 2023, de 68%. Foi na ocasião que a Norma Regulamentadora n° 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) sofreu uma atualização para incluir os riscos psicossociais em seu escopo.

O feito voltou a se repetir no ano passado, com a determinação de que, a partir de maio deste ano, a norma passaria a considerar fatores de risco psicossociais associados ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) das empresas. Isso significa que as empresas deverão apresentar o histórico de monitoramento atrelado a planos de gestão e acompanhamento de resultados no que diz respeito à saúde mental e bem estar no trabalho.

Helyn Thami, CEO da HT Consultoria, indica que o número de afastamentos divulgado pelo Ministério da Previdência Social pode ser ainda maior, uma vez que não inclui licenças curtas, vistos de afastamento negados e outros subgrupos não contabilizados. Ainda assim, o resultado é um alerta para a sociedade em uma tríade: individual, institucional e no contexto de políticas públicas.

Ainda em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já previa uma pandemia de saúde mental em 2020. Frente a crescente de diagnósticos, o Brasil já figurava entre rankings de países com maior número de pessoas com ansiedade e depressão.

Após o isolamento social e a pandemia do Covid-19, o tema ganhou mais visibilidade e maior conscientização, afirma Danilca Galdini, sócia-diretora de pessoas & cultura e Insights da Cia de Talentos. “O conceito de bem estar não mudou muito nesses anos. Sempre se falou muito sobre as diferentes esferas, entre físico emocional, social e financeiro”, diz. “O que mudou no pós pandemia foi que passamos a olhar com muito mais cuidado para questões que envolvem a saúde emocional e social”.

O relatório Pesquisa dos Sonhos 2025, da Cia de Talentos, revela que a saúde mental já é uma prioridade na condução da carreira, sobretudo diante de um cenário que muda constantemente, instabilidade econômica e de mais pressão. Além da segurança financeira, há uma busca por ambientes de trabalho saudáveis, reconhecimento e perspectiva de continuidade na companhia.

Entre as principais dificuldades de estruturar ações voltadas para o bem-estar nas organizações, Helyn cita uma lacuna de conhecimento e execução, uma vez que demanda uma uniformidade de métricas. De acordo com ela, métricas atuais não permitem comparabilidade e ainda não refletem a realidade de fato.

“Algumas das métricas não estão necessariamente ligadas ao processo que está sendo avaliado. Por exemplo, se há a medida de que o trabalhador está satisfeito com o benefício oferecido, isso não necessariamente diz que ele está melhor porque aquele benefício existe”, exemplifica.

Há a necessidade, também, de lideranças mais preparadas. Não apenas da alta gestão, explica Danilca, mas em todos os níveis hierárquicos. “A liderança recebeu também o pacote da saúde mental, muitas vezes, sem saber lidar com a própria. É por isso que a formação para isso é muito importante”, diz.

A mesma pesquisa da Cia de Talentos mostra que lideranças preparadas emocionalmente são capazes de reduzir em 21% frequência dos sintomas relacionados à exaustão nas empresas.

Adequações para a NR-1

Ambas defendem a urgência de um olhar mais ampliado para bem-estar, como estratégia de negócio. Segundo Helyn, é preciso que as empresas tenham um hall de indicadores mínimos, uma vez que a separação de saúde física e mental nem sempre proporciona os melhores benefícios em termos de mensuração. A ciência, indica, valida quatro dimensões neste campo: afetação emocional negativa e positiva, satisfação com o trabalho e senso de propósito.

“Risco psicossocial é uma miríade de coisas e existem ferramentas para medir. A partir das métricas de risco psicossocial, a sequência varia de acordo com a indústria, porque existem algumas com riscos muito específicos”, diz a CEO, que salienta, ainda, a importância da escuta ativa do trabalhador ao longo do processo.

A sócia-diretora de pessoas & cultura e insights da Cia de Talentos entende que o início das fiscalizações de auditorias serão marcados por ajustes. “Com uma nova lei e regra, a adequação passa por um preparo e leva um tempo para que esteja intrínseca na cultura”, pontua. “Também haverá um período de mais aparência do que resultado. O bem-estar não pode ser um olhar de beneficio, mas de olhar estratégico de negócio”.

Reflexos sobre marca empregadora

A atenção ao bem-estar e saúde mental é capaz, do ponto de vista dos negócios, de proporcionar benefícios a curto prazo. Os reflexos são vistos desde o recrutamento e retenção de trabalhadores até, por exemplo, a índices de turnover.

“O trabalho deixa de ser visto como um fim em si mesmo e passa a ser visto como um meio para conseguir atingir o que se deseja”, sugere Danilca. Hoje, uma marca empregadora forte é aquela que consegue conectar seu core business ao bem-estar, acrescenta. Neste sentido, as organizações devem entender como o setor em que atuam favorece o colaborador.

“Os resultados aparecem antes, no preço das ações e na lucratividade das empresas. Do ponto de vista empresarial, olhar para isso é um sinal de sustentabilidade financeira e da competitividade no mercado”, finaliza a CEO da HT Consultoria.