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Checkout, o palco do varejo

Ampliar a conexão humana a partir dos meios de pagamento é uma arte que devemos todos buscar

Denis de Lutiis

Head de marketing da Getnet Brasil 13 de janeiro de 2026 - 19h52

À primeira vista, poucas coisas parecem tão distantes quanto o brilho das telas de cinema e a frieza técnica de um processamento de transação financeira. Enquanto o cinema vive da vulnerabilidade, da narrativa e da explosão emocional, a infraestrutura de meios de pagamento é sinônimo de estabilidade, segurança e invisibilidade.

No entanto, ao ouvir o ator, produtor e empresário Ryan Reynolds falar sobre a construção de marcas globais durante a NRF Big Show 2026, noto que o setor de meios de pagamento passa por um momento importante, em que está enfrentando o seu maior “teste de elenco”.

Em um mercado saturado de soluções tecnológicas, a verdadeira diferenciação não está no código, mas na capacidade de entregar para os clientes a “microautenticidade” e o “investimento emocional” em um ambiente B2B que muitas vezes parece ser árido.

Um ator de sucesso sabe que o público percebe de longe o que é artificial – e faz isso em milésimos de segundo. Ryan Reynolds comentou que audiências e consumidores sabem perfeitamente quando um momento é fabricado, em vez de ser orgânico e natural.

No setor de meios de pagamento, estamos em constantes ajustes e a confiança não nasce da infalibilidade, mas da autenticidade. Estamos falando de humanizar a marca. Significa dar-se ao luxo de reconhecer limitações, tornando a comunicação real e íntima.

O ator Ryan Reynolds sugere que reconhecer os nossos próprios desafios gera mais conexão do que fingir perfeição. É a transição do “corporativo perfeito” para o “humano confiável”. Uma mudança que exige uma cultura diferente para lidar com o erro.

Agilidade cultural e o fluxo do dinheiro

No cinema, o timing é tudo. Na publicidade, Reynolds usa o termo “Fastvertising”: a capacidade de reagir em alta velocidade ao ambiente cultural. Um exemplo é a campanha da Aviation Gin em resposta a um anúncio viral da Peloton: foi rápida, simples e barata, mas gerou um impacto maior do que produções multimilionárias.

O setor de meios de pagamento tradicionalmente opera em ciclos lentos de desenvolvimento e conformidade. No entanto, o comportamento do consumidor moderno é volátil. Precisamos trabalhar para que nossas empresas deixem de ser reativsa e se tornem um agentes ágeis, com impacto cultural relevante.

Parece loucura pensar dessa forma, mas se uma nova tendência de consumo surge nas redes sociais, o meio de pagamento deve estar pronto para facilitar essa conversa, não apenas processá-la meses depois. A velocidade, segundo Reynolds, é uma vantagem estratégica que elimina o ruído do mercado sem depender de orçamentos colossais. Uma lição que podemos aplicar em muitas áreas.

Menos contato não significa zero conexão

Um dos pontos mais provocativos da palestra de Reynolds na NRF 2026 toca diretamente no coração do nosso setor: a obsessão pela ausência de fricção. Entretanto, para o ator, “frictionless não significa contato zero”.

No cinema ou na TV, o espectador quer uma jornada fluida (o filme precisa avançar, a história precisa acontecer), mas quer sentir que algo aconteceu. É essencial vivenciar aquele momento. Para os meios de pagamento, a facilidade deve vir acompanhada de honestidade e encantamento.

Uma transação eficiente não deve eliminar a identidade das marcas envolvidas. Afinal de contas, o checkout não é apenas o fim de uma jornada: é um momento importante que pode fazer o cliente se sentir visto, representado, entendido como um ser humano.

E essa compreensão do valor humano envolvido supera qualquer investimento financeiro. Ryan Reynolds ligava pessoalmente para os Centros de Distribuição da Aviation Gin para entender como a operação estava funcionando e ajudar a resolver problemas. Da mesma forma, um executivo de meios de pagamento deve ir além das planilhas e desenvolver relacionamentos pessoais.

Quando isso acontece, inicia-se um ciclo em que se desenvolve uma afinidade emocional que o dinheiro não compra. Cada pequeno detalhe importa – seja em uma história em um filme, seja em uma transação financeira.

Criatividade vale mais que investimento

É comum nos deixarmos levar pela noção de que a inovação em pagamentos requer investimentos massivos em infraestrutura e IA. Ryan Reynolds traz uma perspectiva artística reconfortante: “personagens são muito mais baratos que explosões”. No filme Deadpool, a falta de orçamento forçou uma narrativa mais criativa e focada no personagem, o que acabou por ser o segredo do seu sucesso global.

Na indústria de pagamentos, a “explosão” são as tecnologias de ponta, enquanto o “personagem” é a voz da marca e a solução de problemas reais do cotidiano. Ter tecnologia é importante, mas o que torna um filme, transação ou relacionamento relevante é o personagem. E, com frequência, as limitações de recursos nos levam a pensar “fora da caixa” e buscar soluções criativas (e melhores) para os problemas.

Trabalhar com soluções de pagamento hoje exige o espírito de um produtor de cinema. É necessário ter “autoria” sobre o sucesso e o fracasso, desenvolvendo marcas fortes que façam com que as pessoas se sintam parte de uma história maior.

Ao adotar a microautenticidade, a velocidade cultural e a compreensão de que a tecnologia de pagamento pode ser uma ponte emocional entre o desejo e a realização, podemos transformar nosso setor. Os meios de pagamento têm o potencial de deixar de ser uma infraestrutura invisível para se tornarem protagonistas na vida dos consumidores.

Afinal, como no cinema, o que importa não é apenas como a história termina (a transação concluída), mas como o espectador se sentiu durante o percurso!