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Como a IA está redesenhando o ponto de entrada do varejo

O ponto de entrada da jornada do varejo está migrando da busca para a conversa

Anita Bataglin

Chief Revenue Officer (CRO) da Unlock 12 de janeiro de 2026 - 10h46

A palestra conjunta de Sundar Pichai, CEO do Google, e Doug McMillon, CEO do Walmart, na NRF 2026, foi marcada por um conjunto consistente de evoluções tecnológicas que, somadas, apontam para uma mudança estrutural no varejo digital. Mais do que novos produtos, o que se apresentou foi uma nova lógica de consumo: o ponto de entrada da jornada está migrando da busca para a conversa.

Os dados ajudam a dimensionar essa transição. O Google já processa mais de 90 trilhões de tokens, com crescimento anual de 11 vezes, refletindo interações cada vez mais ricas entre consumidores e sistemas de IA. Não se trata apenas de volume computacional, mas de um retrato fiel de como o comportamento do consumidor está mudando. A lógica de “procurar, comparar e decidir” dá lugar a interações contínuas, em que o consumidor pergunta, refina, valida e decide dentro de um diálogo em tempo real.

Esse movimento só é possível porque a IA deixou de ser uma camada adicional e passou a operar como infraestrutura central. Processadores dedicados, modelos avançados como o Gemini e uma rede global de alta capacidade permitem que dados, contexto e resposta estejam conectados instantaneamente. Para o varejo, isso rompe um antigo dilema: escala e relevância deixam de ser opostos. A experiência pode ser fluida e contextual mesmo em ambientes de altíssimo volume.

O Shopping Graph do Google materializa essa lógica ao operar com mais de 50 bilhões de listagens de produtos, atualizadas continuamente com informações de preço, estoque e avaliações. Quando essa base viva se conecta a interfaces conversacionais, a descoberta deixa de ser um evento pontual. Ela acontece ao longo da jornada — enquanto o consumidor assiste a um vídeo, faz uma pergunta ou ajusta uma intenção ainda difusa. A decisão passa a ser construída gradualmente, dentro da própria interação.

É nesse contexto que os agentes de IA ganham protagonismo. Diferentemente de mecanismos tradicionais, agentes operam a partir de contexto, histórico e intenção, conduzindo a experiência de forma progressiva. A introdução do Universal Commerce Protocol (UCP) reforça esse modelo ao permitir que a compra aconteça dentro da própria conversa, sem quebrar o fluxo da experiência. O dado deixa de ser apenas insumo analítico e passa a atuar como motor ativo de decisão, conectando descoberta, escolha e transação em um único movimento.

A visão do Walmart adiciona uma camada prática a essa transformação ao mostrar como essa lógica conversacional precisa estar conectada à execução. Um dos experimentos mais relevantes apresentados envolve entregas ultra rápidas, incluindo a expansão do uso de drones em parceria com a Wing, da Alphabet. A iniciativa já opera em múltiplas cidades nos Estados Unidos e avança para centenas de pontos de cobertura, reduzindo drasticamente o tempo entre decisão e recebimento para itens de alta urgência e conveniência. Esse tipo de operação responde diretamente a um consumidor que decide no diálogo e espera que a entrega acompanhe essa mesma velocidade.

Mais do que uma inovação logística isolada, essas iniciativas mostram como dados, IA e operação precisam caminhar juntos. Não adianta uma experiência conversacional sofisticada se a execução não sustenta a promessa feita ao consumidor. No Walmart, agentes também apoiam times internos e parceiros, levando inteligência para a operação e reduzindo fricções na tomada de decisão.

O ponto central dessa conversa é claro: a busca não desaparece; ela é absorvida pela conversa. O modelo tradicional, baseado em encontrar primeiro para decidir depois, cede espaço a um cenário em que a decisão nasce enquanto o consumidor interage. Para as marcas, isso muda profundamente o jogo. Não basta mais ser encontrado; é preciso estar preparado para dialogar, com dados estruturados, operações conectadas e presença ativa nos ambientes onde as decisões estão sendo formadas.

Esse novo modus operandi do consumo já está em curso. E, em um cenário em que a conversa se torna o novo ponto de entrada do varejo, as marcas que não começarem agora a se conectar a essa dinâmica correm o risco de ficar fora do diálogo e, consequentemente, fora da decisão.