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Raso versus significativo

Aqui na NRF, começo a acreditar que a atenção não morreu. Ela ficou seletiva

Andréa Fernandes

Chief Revenue and Growth Officer do Publicis Groupe Brasil 13 de janeiro de 2026 - 12h48

Hoje, fiquei obcecada com uma ideia que parece simples, mas é gigantesca: a briga nunca foi entre short e long content. A briga é entre raso e significativo.

A gente passou anos treinando o dedo para trocar de tela. Três segundos, cinco segundos, estímulo, recompensa, próximo. E aí a gente concluiu, meio apressado, que a atenção morreu.

Mas aqui na NRF, ouvindo algumas conversas bem maduras, estou começando a acreditar no contrário: atenção não morreu. Ela ficou seletiva. Ficou cara. E, quando a atenção vira moeda rara, profundidade vira luxo.

O mais interessante é que o short e o long não se anulam. Eles se complementam. Short é descoberta. É o “eu nem sabia que precisava disso e agora preciso já”. É zeitgeist, impulso, produto entrando no radar. Ele coloca a marca na conversa.

Long é outra coisa. Long é confiança. É quando alguém decide ficar. É quando você sai do entretenimento e entra na relação. É “deixa eu entender melhor”, “me recomenda com honestidade”, “me ajuda a decidir”. E isso vale para newsletter, podcast, YouTube, comunidades… o formato muda, mas a intenção é a mesma: aprofundar.

E tem um ponto que, para mim, é central: quando o conteúdo fica longo, o protagonista não é o algoritmo. É o humano.

Porque o que sustenta long content não é produção. É credibilidade. É voz. É comunidade. É coerência. É aquela sensação de que existe uma pessoa real do outro lado, com repertório, com opinião, com responsabilidade. Isso é relação — e relação virou vantagem competitiva.

Aliás, talvez a grande virada seja essa: o funil acabou. Creator, comunidade, recomendação, conversa, conversão… tudo acontece junto. Não tem mais uma linha reta. O que existe é vínculo. E o vínculo é o que move descoberta, consideração, compra e lealdade.

Isso muda o papel da marca. Em vez de tentar controlar a fala do creator com briefs rígidos, a marca madura aprende a fazer uma coisa mais difícil: confiar na autenticidade. Dar direção sem engessar. Curar sem sufocar.

E isso me leva de novo ao ponto que eu mais tenho repetido aqui: curadoria.

Em um mundo onde todo mundo pode produzir conteúdo o tempo inteiro, a vantagem não está em fazer mais. Está em escolher melhor. Right content, right platform, right moment. E, mais ainda: entender quem você é, o que você precisa e o que você quer — sem ficar correndo atrás do próximo shiny object.

Talvez a gente esteja, finalmente, reaprendendo a ficar. Ficar numa conversa. Ficar numa ideia. Ficar numa relação.

E, num mundo acelerado por IA e agentização, isso não é detalhe. Isso é estratégia.