A verdade está lá fora

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Opinião

A verdade está lá fora

Com as redes sociais sendo usadas para narrar quase em tempo real o que acontece em qualquer lugar do mundo, o objetivo é quase sempre tentar atribuir responsabilidades ao lado oposto


13 de novembro de 2023 - 6h00

A célebre frase da série “Arquivo X”, sucesso dos anos 1990 e protagonizada pelo charmosíssimo casal de agentes do FBI, Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson) nunca fez tanto sentido como agora. A trama tinha como ponto de tensão a forte atração dos personagens principais, muito impulsionada por suas crenças opostas: ele acreditava em atividades paranormais, e ela, não. Juntos conduziam a investigação de estranhos casos, todos envoltos por conspirações alienígenas e a participação secreta do governo estadunidense. Em retrospecto, era um tipo de “crise da verdade”, que não nega saudosismo quando comparada à atual crise das fake news pela qual o mundo passa. Em tempos em que a verdade nunca esteve mais escassa, a polarização e a incitação ao ódio se tornaram inimigos do mundo real, muito mais assustadores do que qualquer ameaça alienígena.

A disseminação de fotos e vídeos que retratam o conflito entre Israel e Hamas, por exemplo, tem sido realizada por cidadãos dos dois lados e reproduzida por canais oficiais, como forças armadas, governo israelense e grupos terroristas ou não que atuam nos territórios palestinos. Um vídeo retirado de um game chegou a circular como se fossem cenas do ataque ao hospital na Faixa de Gaza para ilustrar tamanha capacidade ludibriaria envolvida em temas de tamanha gravidade. Nessa disputa, as redes sociais têm sido usadas para descrever quase em tempo real o que acontece e para reforçar posições e narrativas contrárias, sempre com o objetivo de atribuir a responsabilidade pela brutalidade ao lado oposto.

Recentemente, Thierry Breton, atual comissário europeu para o Mercado Interno e ex-ministro da Economia na França publicou cartas direcionadas às plataformas de redes sociais onde alertava sobre a circulação de fake news em torno do conflito no Oriente Médio. Nos documentos ele exigia a remoção imediata dos conteúdos pelas plataformas. A atitude do comissário converge com os olhares de todo o mundo de como se dará a condução do Digital Service Act, instrumento regulatório da União Europeia, que visa combater o discurso de ódio nas redes – um verdadeiro elefante que já está na sala há bastante tempo.

Talvez você se lembre do movimento Stop Hate for Profit (“Pare o ódio pelo lucro”, em tradução livre), de 2020, onde marcas importantes aderiram ao boicote publicitário como uma forma de pressionar as plataformas digitais a proverem ações de combate à disseminação de ódio e fake news. De lá para cá pouca coisa evoluiu e o elefante basicamente vem sendo movido da sala de jantar para a sala de estar e vice-versa. A carteirada como forma de protesto ou as investidas governamentais, muitas vezes desastradas, não resolvem o problema. Marcas precisam de redes sociais, assim como as redes sociais precisam do orçamento de marketing das marcas. Seria muita ingenuidade imaginar marcas e plataformas unidas para repensar maneiras mais efetivas de se resolver o tema? Garantir um lugar seguro para as marcas passa pelo interesse mais primordial do anunciante, sem contar que muitos modelos de negócio se sustentam única e exclusivamente a partir das plataformas digitais. Todo mundo no mesmo barco, pessoal?

A divulgação de fake news é responsabilidade de quem a criou e também de quem decidiu compartilhar sem verificar a veracidade daquilo que divulga. As redes não têm cunho editorial e, se assim fosse, o modelo de negócios não ficaria em pé. Neste sentido, não seria, então, mais objetivo responsabilizar o cidadão que divulga algo sem checar a fonte? Pode-se argumentar, então, que, do outro lado da sala de jantar, a turma mais liberal levantaria a mão para dizer “e a liberdade de expressão, onde fica?”. Não fica. Informação falsa e mentirosa destrói reputações, democracias inteiras e vidas. Elas vão continuar chegando por muito tempo, pelo visto, mas a decisão de fazê-las circularem, de quem é? Com o conflito no Oriente Médio, as redes sociais como instrumento político ganham texturas mais sombrias frente à propagação do ódio e da polarização do planeta. Verdade de verdade mesmo, essa segue estando lá fora, caros agentes Mulder e Scully – fora e longe das redes sociais.

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