É preciso ter coragem de atravessar o ridículo

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Opinião

É preciso ter coragem de atravessar o ridículo

O mais inovador acontece quando você tem coragem de falar o que ninguém falaria e de fazer o que ninguém faria, mesmo que soe ridículo e traga muito constrangimento

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9 de outubro de 2023 - 6h00

Fui finalmente assistir à peça Eu de Você, um monólogo brilhante da Denise Fraga. Acho que passei por todas as emoções enquanto assistia – inclusive vergonha. Vergonha porque, no meio de uma das histórias que contava, ela brincou com o fato de romantizarmos chefes chamando-os de líderes e de gestores.

Eu sei, muita gente vai querer argumentar que são coisas diferentes. Que um é mais humano que outro, que um é mais exemplar que outro etc etc etc. Se for mesmo, por que tem tanta gente se chamando de líder e tão pouca de chefe?

Pensa comigo: na prática, quantos líderes e/ou gestores bons você já teve? Vai, não tem ninguém ouvindo, pode pensar a verdade.

Voltei pra casa pensando.
Três, foi minha resposta. O resto foi só chefe mesmo.

Corta a cena.

Na mesma semana, tinha ido levar meu tio a um retorno médico. Depois de uma fratura no fêmur, ele precisou fazer uma cirurgia, se movimentar apenas com cadeira de rodas e ser acompanhado 24h por uma equipe de cuidadores.

“Cláudio”, chamou o médico.

Eu e a cuidadora levantamos para decidir quem levaria a cadeira de rodas e quem carregaria as várias sacolas desnecessárias que meu tio decidiu levar. Nesse meio tempo, o médico continuou:

– Olha, Cláudio, vou te fazer um favor e impedir que essas meninas te levem. Afinal, mulher dirigindo é um perigo, né? Imagina dirigindo uma cadeira de rodas.

Meu tio ri. E o médico o leva até a sala sem sequer dar boa tarde para nós duas. Vinte minutos depois a consulta acaba e a piada se repete.

Eu fecho os olhos, respiro fundo e quando percebo já estou no balcão da Enfermagem. Pergunto os dados do médico. Anoto. Falo que vou denunciar. Meu tio pede por favor que não. Eu explico o porquê. Foi piada, ele diz. Explico que não. A cuidadora decide me apoiar. Diz que também se sentiu mal. Meu tio entende. Então não foi piada? Não, tio. Mas e se você denunciar e ele me atender mal? Eu denuncio de novo. Denunciei.

Na saída do hospital, expliquei aos dois que precisava correr pra casa porque tinha uma aula pra dar. A cuidadora perguntou o tema. Eu expliquei:

– É uma aula sobre liderança, mas ainda não sei muito o que vou falar, então preciso chegar antes e preparar o conteúdo.

Ela sorri e diz:

– O que você fez agora, denunciando esse médico, me ajudando e explicando pro seu tio foi um ótimo exemplo de liderança. Fale sobre isso.

Falei.

Corta a cena.

Dias antes, decidi comprar um ingresso para uma peça de teatro depois de ouvir a atriz Denise Fraga falando uma frase que grudou em mim mais do que Amoeba em cabelo de criança: é preciso ter coragem de atravessar o ridículo. Porque o mais inovador acontece quando você tem coragem de falar o que ninguém falaria e de fazer o que ninguém faria, mesmo que soe ridículo e traga muito constrangimento. Anotei no bloco de notas.

Cheguei em casa e contei para minha companheira. Reli essa frase mais duas ou três vezes na semana sem saber pra que ela serviria. Tenho essa mania de ter fé no futuro.

Três semanas depois era futuro. Tinha levado meu tio a um retorno médico. Depois de uma fratura no fêmur, ele precisou fazer uma cirurgia, se movimentar apenas com cadeira de rodas e ser acompanhado 24h por uma equipe de cuidadores. Estava esperando o médico. No tédio, abri o bloco de notas e reli uma frase da Denise Fraga que tinha anotado dias antes. Eu precisava pensar o conteúdo de uma aula que eu daria naquele dia sobre liderança e ainda não sabia muito o que ia falar.

“É preciso ter coragem de atravessar o ridículo”, a frase dizia.

O médico chamou: Cláudio.
Fez a piada.

“É preciso ter coragem de atravessar o ridículo”.

Eu fecho os olhos, respiro fundo e quando percebo já estou no balcão da Enfermagem. Pergunto os dados do médico. Anoto. Falo que vou denunciar.

Meu tio pede por favor que não.

“É preciso ter coragem de atravessar o ridículo”.

A cuidadora decide me apoiar. Diz que também se sentiu mal.

“É preciso ter coragem de atravessar o ridículo”.

Mas e se você denunciar e ele me atender mal?

Eu denuncio de novo. Denunciei.

Corta a cena.

É, Denise.
Anotei sua frase sem saber o porquê.
Dias depois, ela virou coragem para denunciar, aula para dar e, sem perceber, virou também a melhor definição que já vi sobre liderança: liderança é se posicionar com coragem de atravessar o ridículo, falando e fazendo o que talvez mais ninguém tenha coragem de fazer.

Topa atravessar o ridículo?

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