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Opinião

Para pessoas jovens na publicidade

Sem uma grande ideia, nada acontece, e esta somente nasce a partir do entendimento do mundo


8 de janeiro de 2024 - 14h00

Uma pessoa jovem na publicidade tem de entender de comida, não apenas de pratos e restaurantes, simples ou extravagantes, mas da relação do brasileiro e do Brasil com a comida, onde há gente que desperdiça comida enquanto 21 milhões não tem o que comer todos os dias e 70 milhões tem insegurança alimentar. Que a produção de carne e soja tem relação com desmatamento e aquecimento global e que o MTST é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil.

Uma pessoa jovem na publicidade tem que entender minimamente de futebol, da história do esporte e das copas e das suas grandes lendas dentro e fora do campo, das paixões e das rivalidades que movem as pessoas, além de sempre trabalhar para que as mulheres ganhem mais projeção, respeito e dinheiro no esporte.

Uma pessoa jovem na publicidade tem de saber muito da música popular para além da sigla MPB, do rádio e do jabá e das plataformas de streaming e seu repasse vergonhoso aos artistas, têm de conhecer a Batekoo, as Suraras do Tapajós e a revolução cultural protagonizada a partir do Kondzilla.

Uma pessoa jovem na publicidade tem de prestigiar jornalistas e ativistas comprometidas com informação factual, compreender como algoritmos facilitam a propagação de mentiras, apoiar iniciativas como Aos Fatos e Sleeping Giants e condenar investimentos de mídia para veículos que lucram com fake news.

Uma pessoa jovem na publicidade tem de conhecer os trabalhos das artistas plásticos clássicos do Brasil, mas também reconhecer, prestigiar e divulgar artistas independentes e / ou em ascensão como Maxwell Alexandre, Heloisa Hariadne e Auá Mendes.

Uma pessoa jovem na publicidade tem de manter os ouvidos abertos a todos os tipos de música, conhecendo os clássicos, a história da música brasileira em todos os seus aspectos e principalmente as manifestações artísticas da música contemporânea, entender de trap, piseiro, rap, sertanejo, além da música latina e africana.

Uma pessoa jovem na publicidade tem de ter senso de humor e consciência social o suficiente para saber que nem tudo é piada, sempre vai ter alguém que não vai achar graça da tua piada, que piadas sobre publicitários quase sempre fazem sentido e que liberdade de expressão não é liberdade de cometer crimes.

Uma pessoa jovem publicitária tem de entender a história da moda brasileira e que o primeiro livro de moda no Brasil foi escrito pelo paraense João Affonso do Nascimento, conterrâneo de Fernando Hage, professor de história da moda que nos ajuda a entender a relevância inequívoca de Carol Barreto, Lab Fantasma, Isaac Silva, Meninos Rei e Pop Plus.

Uma pessoa jovem publicitária tem de entender a dinâmica das rádios, ouvir podcasts, entender as dinâmicas, os benefícios, os impactos e os perigos das redes sociais para a saúde mental e a própria democracia.

Uma pessoa jovem publicitária tem de saber quem foi o outro grande gênio da comunicação popular além de Washington Olivetto. Cumpadi Washington, inventor do É O Tchan e um dos maiores compositores do país e dono de um repertório de bordões famosos de dar inveja a qualquer publicitário premiado.

Uma pessoa jovem publicitária sabe que tem que criar bem para vender carro, mesmo sabendo do aquecimento global e da importância da ampliação e modernização dos serviços de transporte público sem que haja privatização dos mesmos.

Uma pessoa jovem publicitária tem de conhecer pontos turísticos manjados tão bem quanto os lugares que locais mantêm em segredo; conhecer os lugares que todo mundo vai há anos e os lugares que acabaram de abrir e ainda não caíram na boca da imprensa e dos influenciadores.

Uma pessoa jovem publicitária tem de lutar pelos direitos de reconhecer seus próprios privilégios, combater a supremacia masculina e branca e sempre lutar pelos direitos das pessoas de grupos minorizados nas esferas pública e privada.

Uma pessoa jovem publicitária tem de entender, acreditar, respeitar e lutar pelo estado democrático de direito, contra forças que a ameacem, e entender as diferenças básicas entre esquerda e direita.

Uma pessoa jovem publicitária precisa conhecer todos os estados do país e experimentar os sorvetes e outras delícias das culinárias locais, de preferência trazendo na mala um pouco para os colegas da agência.

Uma pessoa jovem publicitária tem de estudar línguas, entender gírias, dialetos e praticar a linguagem neutra, o que expande o seu entendimento de várias perspectivas e abordagens que podem ajudar a desenvolver melhores soluções para seus clientes.

Uma pessoa jovem publicitária tem de saber quem são as lendas do esporte e como elas foram superadas por Lewis Hamilton, Serena Williams, Michael Jordan, Marta, Michael Jackson, Rebeca Andrade, Rayssa Leal e Tiger Woods.

Uma pessoa jovem publicitária tem de conhecer a arquitetura de Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi e Joaquim Guedes, mas também conhecer a história de Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas, Enedina Alves Marques e celebrar o trabalho célebre e premiado de Diébédo Francis Kéré.

Uma pessoa jovem publicitária jamais deve dar palpites em pratos ou trabalhos sem antes compreender a complexidade do processo para se chegar naquele resultado, pois o respeito pela autoralidade e auteridade é o caminho do saber e o inverso da ignorância.

Uma pessoa jovem publicitária tem de assistir a todos os filmes clássicos do cinema mundial, conhecer as principais obras e pessoas do cinema brasileiro, além de celebrar Adélia Sampaio e garantir a produção e lançamento de obras de artistas alternativos, como Sabrina Fidalgo.

Uma pessoa jovem publicitária tem de lamentar que até hoje homens brancos e ricos ainda dominam todos os aspectos da publicidade no Brasil e no mundo.

Uma pessoa jovem publicitária tem de ter consciência de que, no negócio da comunicação, sem uma grande ideia, não acontece absolutamente nada. Uma pessoa jovem publicitária tem até de entender um pouco de publicidade, mas tem de entender mesmo é do mundo, do vivo, porque quem não entende do mundo e do que é vivo não entende de publicidade.

Palavra de quem entrou na publicidade em 2007 aos 28 anos, sem diploma, mas com uma vida repleta de experiências e referências diversas.

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