Pintar tudo de rosa é suficiente no outubro? Qual o papel das empresas nesse contexto?

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Opinião

Pintar tudo de rosa é suficiente no outubro? Qual o papel das empresas nesse contexto?

Como comunicadora, observo, também, há anos o mesmo movimento e me pergunto: que mensagem o uso do rosa traz para as pessoas?


5 de outubro de 2023 - 12h00

Como consumidora, há anos eu observo a movimentação das empresas em datas marcadas por uma celebração ou causa, como do Outubro Rosa. Percebo que minhas redes sociais, as vitrines, os sites, os rótulos das marcas se pintam de rosa das mais variadas tonalidades marcando o mês.

Como comunicadora, observo, também, há anos o mesmo movimento e me pergunto: que mensagem o uso do rosa traz para as pessoas?

O mesmo rosa pintou todos os espaços possíveis há poucos meses para marcar o lançamento de um filme. Diversas marcas que não têm sequer relação com o tema estavam completamente cor de rosa. O filme foi um grande sucesso de bilheteria. Isso então significa que pintar o mundo de cor de rosa é o suficiente para uma grande ação?

Há mais de 20 anos o Outubro Rosa reforça a importância dos cuidados com a saúde das mamas, um movimento que começou nos Estados Unidos e ganhou força em todo o mundo, especialmente no Brasil. Este é um mês em que quase todas as empresas abraçam o tema, se envolvem em ações e levam o câncer de mama como uma bandeira, mesmo que essas ações sejam apenas a tal mudança de rótulo ou uma foto com os colaboradores usando a cor rosa. Sim, isso acontece. Mesmo que não falem sobre isso em qualquer outro momento do ano.

Há 3 anos o câncer de mama tornou-se o tipo da doença mais comum no mundo. É o tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil. O que estamos fazendo de errado então? Porque pintar o mundo de rosa funciona como jogada de marketing para o lançamento de um grande filme, mas não consegue, mesmo com todos esses anos de movimentação, mudar a realidade da doença?

Não considero o Outubro Rosa errado, inútil. Também não acho que deveríamos cancelar todo o colorido deste mês tão importante ou que as empresas e pessoas devam deixar de fazer essas ações. Pelo contrário, acredito que pintar o mundo de rosa durante um mês pode sim ser muito importante e transformador se esse movimento vier acompanhado de informação de qualidade, de ações eficientes, de posicionamento pela causa destas marcas, mas também não só quando falamos para fora.

As colaboradoras da empresa que apenas pinta seus rótulos de rosa em outubro conseguem tirar algumas horas anualmente para fazer seus exames? Estas mesmas colaboradoras, caso recebam um diagnóstico positivo, encontram nas empresas suporte e acolhimento diante de um diagnóstico tão desafiador? Não adianta colorir de cor alguma um produto ou uma rede social, se simplesmente este não é um assunto sequer conversado dentro do ambiente de trabalho ou a cor não tenha alguma mensagem relevante como companhia a não ser o básico: nós apoiamos o Outubro Rosa! Apoiamos? Como? E, o mais importante, lembrar que o câncer de mama não acontece apenas em outubro. Ele acontece o ano todo.

O papel das empresas pode ser transformador para a causa. Ao compararmos o número de seguidores de uma pequena associação de pacientes com o de uma grande marca, com certeza as comunicações da grande marca têm o potencial de atingir um público muito maior e, mais que isso, levar conhecimento a muito mais mulheres que consomem o que ela oferece. Nós temos uma relação de confiança com as marcas das quais compramos e é fundamental que as elas usem esse

vínculo para, também, desempenhar um papel social quando o tema é câncer de mama. É assim que construímos nossas campanhas de Outubro Rosa: pensando em cada mulher que vai receber essa mensagem. E trabalhando o ano todo para isso.

O nosso Outubro, na verdade, começa em Janeiro, no mesmo momento em que cada um dos projetos que atuamos é definido. Ele faz parte de um movimento completo de transformação da realidade do câncer de mama que promovemos e com o objetivo de levar informação de qualidade sobre quais os riscos de desenvolver a doença e como diminuí-los, quais são os sinais que as mulheres devem ficar atentas e como é possível realizar e agilizar diagnósticos e tratamentos por meio de leis que garantem estes acessos.

Não espero que as empresas se tornem grandes investidoras sociais na causa do câncer de mama, embora isso pudesse contribuir enormemente para a mudança da realidade da doença no Brasil. Mas as marcas poderiam utilizar sua força para que as pessoas acessassem, ao menos neste mês, informações que tenham o potencial de transformar vidas.

O câncer de mama quando diagnosticado em estágios iniciais, o que chamamos de precocemente, tem mais de 95% de chance de cura. As mulheres têm direito de fazer sua mamografia gratuitamente no SUS e existem duas leis que garantem seu diagnóstico e início de tratamento em tempo oportuno – as leis dos 30 e 60 dias. Se as marcas escolhessem pelo menos uma informação de qualidade para complementar o “pintar de rosa de todas as páginas ou acender todas as luzes”, acredito que o movimento ganharia muito mais força e potência de transformação social. E muito mais vidas seriam salvas através de conhecimento especializado e relevante para quem precisa

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