Sem tempo para a sutileza

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Opinião

Sem tempo para a sutileza

Pressionados pela pressa, buscamos ser como computadores, precisos, objetivos; e ficamos sem tempo para amenidades e para humanidades


9 de maio de 2023 - 6h00

O mundo anda sem tempo para a sutileza (Crédito: Reprodução)

O mundo anda sem tempo para a sutileza. É uma arte em desuso. Pode reparar: o não-dito, o subentendido, a delicadeza. São coisas cada vez mais raras.

Hoje, tudo é gritado, esfregado na cara, explícito. Marcas d’água inundam comerciais com medo de que alguém não consiga entender do que se trata. Jingles viraram briefings cantados. Parece que vivemos dentro de um bloco comercial ruim onde todos os gerentes enlouquecem simultaneamente. O problema é que, se todo mundo grita, ninguém consegue escutar. E para chamar a atenção, você não precisa necessariamente fazer barulho. João Gilberto que o diga.

Tom Jobim conseguiu fazer do “Samba de Uma Nota Só” uma música sofisticada graças a pequenas variações e nuances. “Something”, de George Harrison, foi considerada por Frank Sinatra a maior canção de amor já escrita. Isso sem mencionar uma única vez a palavra amor. Ernest Hemingway escreveu a história mais triste de que se tem notícia com apenas seis palavras e uma dose cavalar de sutileza: “Vende-se sapato de bebê. Nunca usado”.

A sutileza é o easter egg da vida. Aparece quando a gente menos espera. Fica escondida, só esperando até alguém perceber. Mas quando aparece, faz todo o sentido e parece que sempre esteve ali à nossa vista. Como a surpresa de um filme de M. Night Shyamalan.

O pai da psicanálise, Sigmund Freud, disse certa vez que “a voz do inconsciente é sutil, mas ela não descansa até ser ouvida”. Tinha toda a razão. Confundimos sutileza com falta de assertividade, jeito com falta de força, nuance com falta de objetividade. Nosso cérebro é capaz de coisas incríveis. Ele é treinado para completar as coisas, achar significados. Podemos compreender frases mesmo que as palavras estejam com as letras fora da posição certa. E certamente ele pode captar uma pequena sutileza.

Computadores, por sua vez, não são muito afeitos a sutilezas. Trata-se de uma ciência exata. Sem consciência. Sem sentimento. Desprovido de emoções. É tudo uma questão de zero ou um, dados, algoritmos. Pergunte qualquer coisa ao ChatGPT, e ele tentará dar a resposta mais exata possível. Escreva um prompt no Midjourney e, em instantes, ele irá reproduzir fielmente o que você escreveu em imagens. O problema — Freud novamente nos ajuda a explicar — é que as pessoas não são uma ciência exata. E se tem uma coisa que o SXSW, Steve Jobs, o fundador da Open AI e praticamente todo mundo concorda é que inovação não é sobre tecnologia. Mas sobre pessoas.

A tecnologia não comemora bodas de prata. Não se fantasia de Deadpool para o aniversário do filho. Nem sabe o frio na barriga que dá antes de pedir alguém em casamento. A inteligência artificial generativa pode ajudar você a executar praticamente qualquer tarefa em menos tempo. Mas ela nunca vai poder aproveitar esse tempo pra melhorar o pace na corrida, tirar aquela música que você tanto queria na guitarra ou descobrir o sabor de um negroni de bergamota enquanto discute um episódio de “The Last of Us” com os amigos.

Essa é a grande ironia. No mundo da pressa, buscamos ser cada vez mais como os computadores. Precisos. Objetivos. Sem tempo para amenidades. Sem tempo pra humanidades. Em busca da eficiência explicamos tudo nos mínimos detalhes até não deixar mais qualquer espaço para a imaginação, mesmo sabendo que a imaginação é das coisas mais poderosas que existem.

Por isso, ao invés de discutir se as máquinas vão tomar o lugar da gente, talvez fosse melhor a gente tentar se parecer menos com elas. É uma mudança sutil. Mas a sutileza, você sabe, é o que faz toda a diferença.

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