Opinião ProXXIma

Sem Filtro: a nova era da escuta das marcas

Na prática, isso significa transformar a dinâmica da pesquisa: trocar o espelho por uma mesa redonda

André Chaves

Sócio fundador da Future Hacker/Leme Growth 16 de janeiro de 2026 - 12h45

Quebrar o espelho em uma sessão de pesquisa qualitativa é mais do que um gesto simbólico, é um manifesto vivo diante de um novo contrato social entre marcas e pessoas. Em um cenário onde consumidores, especialmente das gerações Z e Alpha, rejeitam narrativas plastificadas e buscam relações mais autênticas, insistir em manter o espelho intacto é escolher permanecer em um tempo que já passou.

É como se a marca quisesse ouvir por trás de um vidro espelhado, segura em sua posição de poder, sem se comprometer com o diálogo.

Ao quebrarmos o espelho, rompemos com a lógica da observação passiva. Entramos em um território de presença, onde as marcas não apenas escutam mas se escutam. Não apenas estudam o outro mas se colocam em vulnerabilidade, como parte ativa da conversa. Um exemplo prático: marcas que hoje abrem espaços de co-criação com comunidades, como a Lush, que testa e desenvolve produtos com base em fóruns abertos com consumidores, ou a Patagonia, que envolve seus clientes em pautas ambientais reais, construindo narrativas a partir de valores compartilhados, não de campanhas publicitárias.

Na prática, isso significa transformar a dinâmica da pesquisa: trocar o espelho por uma mesa redonda. Significa sair do focus group tradicional e criar círculos de escuta, onde consumidores, pesquisadores e representantes da marca compartilham perspectivas em pé de igualdade. Significa ir além dos insights para provocar mudanças internas na cultura da empresa, no produto, na forma como a marca se posiciona no mundo.

O espelho quebrado, então, vira símbolo de um novo método: mais horizontal, mais transparente, mais humano. Um convite à escuta radical, onde não há script pronto, apenas disposição para estar presente, errar, aprender e evoluir junto. É nesse terreno que surgem as inovações mais potentes — aquelas que nascem do real e transformam o mercado de dentro para fora.