Beetlejuice, Beetlejuice, Beetle…
O clima é de catarse, o SXSW 2026 foca no que a IA nos tira e no que precisamos resgatar da nossa humanidade
Austin é estranha. Mas esse ano está digna de Tim Burton e sua famosa dança dos fantasmas, aquela convivência caótica entre vivos e mortos.
A sensação começa pelo vazio que a cidade está vivendo. O antigo Austin Convention Center foi demolido e, por enquanto, existe apenas um grande buraco no meio da cidade. Um vazio físico bem no coração do festival.
Apesar disso, o SXSW continua. Quem sabe até mais forte. Como se o vazio não fosse exatamente um problema para quem quer descobrir o que existe do outro lado do futuro. Um futuro em que humanos começam a parecer fantasmas em uma economia cada vez mais automatizada.
E é curioso perceber como tudo continua aparentemente normal, mesmo com esse cenário meio estranho, meio mórbido.
Por que seguimos como se nada tivesse acontecido?
Será que esse vazio de identidade não é também o que a inteligência artificial está fazendo com a gente? A AI agora trabalha por nós, compra por nós, escreve por nós, conversa por nós. Em alguns casos, quase vive por nós.
E agora? É o fim ou o começo?
Parte de quem está aqui acredita que é o começo e avança em trilhas de inovação, tecnologia e novos modelos de negócio.
Mas há também quem esteja olhando para tudo isso com outra pergunta na cabeça. Se as máquinas fazem cada vez mais coisas por nós, qual é exatamente o nosso papel nessa história?
Por isso não surpreende ver tantas salas lotadas para conversas sobre propósito, comunidade, relações humanas. Nesta edição parece haver mais gente procurando sentido do que novidade.
O festival vive uma espécie de dança estranha entre dois mundos. Quase como naquela cena clássica de Beetlejuice em que vivos e mortos acabam dançando juntos na mesma mesa de jantar, sem saber muito bem quem pertence a qual lado.
No meio dessa mistura aconteceu até um funeral simbólico. Amy Webb se despediu do seu famoso relatório de tendências. Depois de anos tentando prever o futuro, ela decidiu enterrá-lo ali mesmo, no palco. Como se dissesse que, do lado de lá, as coisas agora mudam rápido demais para caber em um PDF anual.
E aí vem a pergunta inevitável: Sem tendências para nos dizer antes de todo mundo o que está por vir, o que estamos fazendo aqui?
Talvez fazendo exatamente o que as pessoas fazem em funerais. Pensar sobre a vida. Sobre relações. Sobre o que realmente importa.
Essa edição tem um pouco desse clima de catarse coletiva. Um questionamento silencioso sobre o que estamos perdendo para a inteligência artificial. E, principalmente, sobre o que precisamos resgatar.
O avanço tecnológico é irreversível. Mas existe um desconforto crescente com a ideia de nos tornarmos fantasmas de uma economia onde bilhões de dólares podem ser gerados por empresas de uma única pessoa.
Um incômodo que está indo além do trabalho. Se a tecnologia responde por nós, escreve por nós, decide por nós, em que momento ela começa também a ocupar os espaços mais humanos da vida? O tempo de ser pai, filho, amigo. O tempo de conversar sem mediação, de errar, de pensar devagar. Existe um medo silencioso de que, sem perceber, a gente passe a assistir a própria vida como um fantasma.
Por isso uma frase dita aqui ficou ecoando na cabeça ao longo do festival. Algo que soa quase como um conselho para esse momento estranho que estamos vivendo:
“To fight with smart machines, you have to be very primitive.”
Yasunao Tone
Não por acaso, o fascínio tecnológico parece dar lugar a conversas mais serenas. Menos deslumbradas. Mais humanas.
No fundo, o que realmente move o festival continua sendo algo bem antigo. Nossa necessidade de sermos vistos, de sermos valorizados e de construir relações que tenham significado real.
Talvez esse buraco literal no meio de Austin seja também um símbolo do momento que estamos vivendo. Um vazio de identidade que precisa ser reconstruído. E isso não virá de uma tecnologia ou de uma tendência. Virá da própria comunidade que faz esse lugar existir todos os anos.
Construir identidade nunca foi um trabalho simples. É um exercício diário. E, ao que tudo indica, será exatamente esse esforço coletivo que vai dar sentido as próximas edições do SXSW.
Além, claro, de ser o lugar onde os fantasmas se divertem.