Escritora fala de se sentir importante frente à automação
Diante do avanço da tecnologia, a necessidade humana de reconhecimento e pertencimento será cada vez mais central nas organizações
No primeiro dia do SXSW 2026, o conceito de mattering, trazido pela jornalista e autora best-seller do New York Times, Jennifer B. Wallace, me fez refletir sobre trabalho, liderança e o futuro das organizações. Ela falou sobre como, em um mundo cada vez mais automatizado, acelerado e dominado pela tecnologia, talvez a grande crise que esteja surgindo não seja apenas de trabalho, mas de significado.
Esse é o conceito de mattering: a necessidade humana de sentir que é valorizado e que faz diferença para alguém.
Ela trouxe uma provocação muito forte: nos próximos anos, muitas tarefas podem deixar de precisar de humanos. Mas as pessoas não querem apenas produzir ou bater metas; elas querem sentir que importam para o mundo. Então surge uma pergunta mais profunda: se a máquina executa a tarefa, onde o ser humano encontra valor?
Porque, no fundo, o que as pessoas buscam não é apenas o salário, a produtividade ou a performance. Elas querem se sentir importantes, necessárias, vistas.
Houve uma ideia linda nessa fala: quando pensamos nos momentos em que nos sentimos amados ou importantes para alguém, raramente são os grandes marcos da vida que vêm primeiro. Não vêm à mente o prêmio, a promoção ou o grande discurso público. Vêm os detalhes, os gestos do cotidiano.
No ambiente de trabalho, isso aparece quando alguém percebe que você não está bem e te traz um doce. Quando alguém lembra do que você gosta. Quando alguém reconhece seu esforço quando ninguém mais percebeu.
Ou seja: o ser humano não quer ser lembrado apenas nos grandes momentos. Ele quer ter significado no dia a dia. Esse ponto me marcou muito, porque Jennifer mostra que o mattering não está apenas nas grandes conquistas. Ele vive nas pequenas confirmações de que a nossa existência faz diferença — e isso é extremamente relevante no ambiente de trabalho.
Ela trouxe um dado forte: hoje, a maior parte das pessoas não está verdadeiramente engajada no trabalho. Segundo dados mais recentes da Gallup, 79% dos trabalhadores no mundo estão desengajados ou ativamente desengajados; nos Estados Unidos, esse número gira em torno de 69%.
A leitura dela é muito interessante: muitas pessoas não se afastam emocionalmente do trabalho por preguiça. Elas se desligam porque se sentem invisíveis. Porque sentem que o que fazem não importa e não conseguem enxergar o impacto do próprio esforço.
E ninguém se esforça de verdade por algo que não percebe fazer diferença. Esse talvez seja um dos grandes alertas para lideranças, empresas e até famílias: as pessoas precisam sentir que contam. Precisam entender que sua presença muda alguma coisa.
Outro dado muito relevante foi sobre o feedback. Pessoas que recebem feedback valioso e específico são 48% menos propensas a procurar outro emprego e podem ser até cinco vezes mais engajadas no que fazem.
Olha a força disso. Não é apenas sobre elogiar. É sobre mostrar para a pessoa: eu vejo o que você faz. Eu entendo quem você é. E o que você entrega tem impacto real.
E ela mostrou que isso muda tudo. Muda a motivação, a retenção, a energia no trabalho — e até a forma como a pessoa volta para casa no fim do dia.
Porque, quando alguém se sente desvalorizado no trabalho, isso transborda. Vai para a mesa do jantar. Vai para o casamento. Vai para os filhos. Vai para a saúde emocional. Mas o contrário também é verdadeiro: quando alguém se sente reconhecido, isso também transborda.
Outra reflexão muito forte foi a ideia de que estamos vivendo uma nostalgia coletiva — não apenas por objetos antigos, mas por uma sensação antiga: pertencimento, comunidade, ser notado, importar para os outros.
No fundo, talvez o que muita gente esteja buscando hoje não seja o passado em si, mas a sensação de mattering que existia naturalmente em relações mais humanas, mais próximas, mais presentes.
Ela também falou sobre quatro elementos que constroem esse sentimento: ser visto como alguém significativo, ser apreciado, sentir que alguém investe em você e perceber que você é necessário — que alguém depende de você.
Isso me fez pensar que, no futuro, talvez a grande vantagem humana não seja apenas inteligência ou produtividade. Talvez seja a nossa capacidade de fazer o outro sentir que importa.
Num mundo em que tudo está ficando mais automático, escalável e impessoal, a habilidade de reconhecer alguém de verdade pode se tornar um diferencial enorme.
Para mim, a síntese dessa keynote foi essa: as pessoas não adoecem apenas por excesso de trabalho. Muitas adoecem por falta de significado. E talvez uma das grandes tarefas do futuro seja garantir que, mesmo em um mundo cada vez mais tecnológico, as pessoas continuem se sentindo necessárias, vistas e importantes.
Porque, no fim das contas, produtividade sem pertencimento esvazia. Eficiência sem vínculo isola. E sucesso sem significado não sustenta ninguém por muito tempo.