Informação, influência e o novo jogo de credibilidade
Discussões no SXSW 2026 mostram como criadores, redações e plataformas estão redesenhando, juntos, os caminhos da confiança
Já não é novidade que a forma como consumimos informação mudou. Mas no SXSW ficou evidente que a transformação, para além de formatos, atinge diretamente a forma como construímos credibilidade e determina quem passa a ter legitimidade para influenciar o debate público.
No painel “Criadores, Jornalismo, IA e Confiança no Ecossistema da Informação”, que reuniu diferentes vozes dos ecossistemas de redações e criadores, a discussão partiu de perspectivas complementares. De um lado, Cheyenne Hunt, diretora executiva da Gen Z for Change, organização sem fins lucrativos dedicada ao apoio e à defesa de criadores. De outro, Dylan, jornalista do The Washington Post responsável por iniciativas que aproximam o jornalismo do universo dos creators após anos de cobertura política.
O ponto de partida foi a constatação de que o público, cada vez mais, se conecta com pessoas antes de se conectar com instituições.
Essa mudança ajuda a explicar por que criadores ganharam espaço ao oferecer algo que a mídia tradicional nem sempre consegue entregar com a mesma agilidade. Linguagem direta, proximidade, autenticidade e uma leitura de mundo que parece mais acessível. Em feeds desenhados para capturar a atenção em poucos segundos, formato e ritmo já são tão determinantes quanto o conteúdo.
Mas essa reorganização do consumo não elimina o papel do jornalismo. Ao contrário, torna suas funções estruturais ainda mais visíveis.
O que sustenta o sistema
Durante grandes acontecimentos, o comportamento do público revela um padrão consistente. As pessoas podem descobrir uma notícia com criadores, mas recorrem às redações quando precisam de confirmação, contexto e profundidade.
Reportagem original, checagem de fatos, transparência e capacidade de investigação seguem sendo pilares que sustentam o sistema informacional. Criadores, na maior parte das vezes, não substituem esse trabalho. Eles amplificam, comentam e traduzem.
Essa distinção é relevante e, quando bem explicitada, fortalece o ecossistema como um todo. Muitos criadores, como a própria Cheyenne Hunt, fazem questão de não se posicionar como jornalistas. Ao assumir o papel de comentaristas, delimitam seu campo de atuação e tornam mais clara a relação com o público.
O problema não está na coexistência desses papéis, mas na perda de clareza sobre onde termina a interpretação e começa a apuração.
As regras do novo jogo
Se por um lado os criadores conquistam relevância pela proximidade, por outro operam sob pressões que nem sempre são visíveis. Sustentabilidade financeira, dependência de plataformas e a necessidade constante de engajamento moldam o conteúdo produzido.
A ideia de independência, frequentemente associada a esse universo, é bem mais complexa na prática. Parcerias, patrocínios e dinâmicas de visibilidade podem influenciar em decisões editoriais e, em alguns casos, até direcionar narrativas.
Nesse contexto, a confiança passa a operar sob novas regras. Quando um veículo erra, o erro é processado como falha institucional. Quando um criador erra, a percepção é de violação de um vínculo pessoal. A mesma proximidade que impulsiona o engajamento aumenta, proporcionalmente, o custo da inconsistência.
A inteligência artificial começa a ocupar espaço nesse cenário, sobretudo em etapas de produção e distribuição. Ainda assim, permanece distante do rigor necessário para sustentar reportagens. Sem transparência, seu uso tende a ampliar o desafio de distinguir o que é confiável, o que é interpretação e o que é simplesmente ruído.
A arquitetura que sustenta a confiança
Diante desse cenário, parece claro que a relação entre criadores e jornalismo não é de substituição, mas de interdependência.
Redações passam a experimentar linguagens mais próximas das plataformas, expondo processos, bastidores e pessoas. Criadores, por sua vez, ampliam seu papel ao se conectar com fontes confiáveis e expandir o alcance de conteúdos bem apurados.
Nesse movimento, o próprio jornalismo começa a ressignificar suas fronteiras. O jornalista do The Washington Post, Dylan, compartilhou que, dentro do veículo, redes sociais e criadores são tratados também como geradores de notícia — não apenas pelo potencial de disseminação, mas pelos questionamentos do público que emergem desses espaços, muitas vezes ampliando o debate e alcançando as interpretações de realidade para além do que é construído no ambiente digital.
Para marcas, empresas e profissionais de comunicação, isso redefine a lógica de atuação. Não se trata mais de escolher entre mídia tradicional ou creators, mas de compreender como essas forças se combinam na construção de credibilidade.
No fim, não estamos apenas diante de uma mudança de formato ou de canal, mas de uma escolha coletiva sobre o tipo de ecossistema de informação que queremos sustentar. Um ambiente onde a confiança não seja apenas performada, mas construída com consistência e onde relevância não venha apenas da capacidade de capturar atenção, mas da responsabilidade de sustentar o que se diz.
Porque, onde todos podem falar, o que realmente diferencia é quem está disposto a responder pelo impacto da própria voz.