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Quais são os paralelos entre a crise de 1929 e 2026?

Jornalista e autor Andrew Ross Sorkin detalha similaridades e diferenças da recessão econômica com a possível bolha da IA

i 15 de março de 2026 - 21h10

Em 1929, os Estados Unidos e, por consequência, o mundo, viveram uma das maiores recessões econômicas do século XX causada, entre outros motivos, pela alta especulação financeira. A quebra da Bolsa de Nova York em 24 de outubro daquele ano levou o País ao período de uma década cunhado como Grande Depressão, marcado por alta do desemprego e falências.

Quase um século depois, o País se questiona se o aumento inflacionado dos investimentos em big techs de IA sem retorno imediato ou de curto prazo pode criar uma bolha tecnológica, como ocorreu com a internet nos anos 2000.

Andrew Ross Sorkin

Em entrevista ao jornalista Joe Weisenthal, Andrew Ross Sorkin compara a inteligência artificial a uma faca de dois gumes (Crédito: Thaís Monteiro)

Há paralelos entre o cenário atual e a crise econômica de 1929. O editor do The New York Times, Andrew Ross Sorkin, autor de “1929: Inside the Greatest Crash in Wall Street History”, comparou a ascensão da Nvidia, por exemplo, à da Radio Corporation of America (RCA) da década de 1920. A empresa de eletrônicos foi pioneira na televisão, com patentes para os tubos de câmera e imagem introduzidos na época. Ela era descrita como o futuro da tecnologia.

O período também introduziu os empresários da tecnologia à fama com o objetivo de democratizar o acesso ao mercado financeiro. Nomes como John Raskob, executivo da DuPont e General Motors, – que criou o crédito para consumidores adquirirem carros – passaram a figurar na mídia e em capas de revistas, assim como acontece hoje com Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk (xAI e Tesla), apontou.

As diferenças entre os dois períodos são relevantes. Em 1929, as margens de investimento eram maiores – investidores compravam ações depositando 1 dólar para cada 10 emprestados pela corretora. Quando a bolsa caiu 50%, empresas e indivíduos não tinham aporte para se recuperar da queda, mesmo que o mercado tenha encerrado o ano com 17% de queda.

“As pessoas davam a vida delas sem perceber, porque era a primeira vez que faziam isso e porque o mercado crescia muito, tipo 90% ao ano. Acho que a expressão FOMO (sigla para fear of missing out) não existia na época, mas esse era o sentimento. Subir no trem antes dele sair da estação”, descreveu.

A distribuição de informações sobre investimentos e oportunidades de aquisição de ações escalou por conta da internet. Enquanto no século passado, Nova York tinha casas de corretagem a cada esquina, hoje elas ficam no bolso do consumidor.

A velocidade e democratização da informação marcam outra diferença entre os períodos. O preço nos painéis da bolsa estava sempre de quatro a cinco horas atrasadas. Alguns investidores iam presencialmente para Wall Street para descobrir se ainda tinham dinheiro.

O sentimento do público também era diferente. “Não sei se, como sociedade, buscamos coisas para se preocupar. Esse momento, em termos de tecnologia e geopolítica, nos leva a isso. Em 1920, estávamos passando por revolução tecnológica. As pessoas estavam animadas. Hoje, parece mais complicado”, descreveu.

Cenário econômico e político atual dos Estados Unidos

Sorkin descreve a inteligência artificial como uma faca de dois gumes, uma vez que ela pode provocar uma bolha especulativa que pode estourar quando as receitas não acompanham os investimentos, mas também pode promover uma automação massiva e destruir a economia do mesmo jeito.

Em seus contatos com líderes de grandes empresas, o jornalista percebe um descompasso entre o que os CEOs dizem publicamente e o que pensam sobre a política econômica do governo de Donald Trump.

Alguns consideram a política tarifária ruim e se preocupam com uma possível perda da independência do Banco Central, mas não retaliam o governo publicamente por medo de represália. Ao mesmo tempo, alguns consideram que Trump mantém um diálogo mais aberto com as empresas, o que torna sua política boa para o empresariado.

Papel do jornalismo

Para Sorkin, o papel do jornalismo é alertar para os riscos iminentes, como foi feito na década de 1920 e em demais contextos semelhantes, mas o público não aceita bem os alertas dos veículos ou especialistas, pois preferem assumir seus riscos.