Quando uma futurista decreta o fim das tendências
Morrem os relatórios de tendências, nasce a lente antropológica: o futuro agora é um fenômeno humano
Quando uma futurista como Amy Webb, um dos nomes mais aguardados do South by Southwest, sobe ao palco e decreta a morte dos relatórios de tendências, a frase soa impactante. Mas, no fundo, ela apenas coloca em palavras algo que o mercado inteiro já vinha sentindo.
Nos últimos anos, a tecnologia passou a avançar em um ritmo tão acelerado que as ferramentas tradicionais de previsão começaram a perder eficácia. Empresas, marcas e pessoas no geral passaram a operar em um regime constante de atualização, tentando acompanhar transformações que acontecem em tempo real. O futuro deixou de ser algo que se antecipa com relatórios e passou a ser algo que se administra no presente.
Por isso, a fala de Amy Webb não representa exatamente uma ruptura. Ela funciona mais como uma espécie de legitimação coletiva: o alívio que surge quando uma autoridade reconhecida nomeia aquilo que todos já percebiam, mas ainda tentavam explicar dentro de modelos antigos.
Se os relatórios de tendências já não dão conta de explicar o mundo, o que entra no lugar?
Curiosamente, a resposta parece estar no próprio SXSW deste ano.
Mais do que um festival sobre inovação, o evento se aproxima cada vez mais de uma lente antropológica. Em vez de tentar prever o futuro apenas por meio de dados ou projeções, a discussão passa a observar como as pessoas vivem, interpretam e incorporam a tecnologia no cotidiano, exatamente como faria a antropologia ao estudar culturas e transformações sociais.
Esse deslocamento de olhar revela algo importante. Durante muito tempo, o centro da conversa sobre inovação foi a própria tecnologia, suas capacidades, seus avanços e suas possibilidades. Agora, a pergunta começa a mudar.
Não se trata mais apenas de perguntar o que a tecnologia será capaz de fazer, mas de entender o que acontece com o ser humano quando essa tecnologia passa a fazer parte da vida cotidiana.
Nesse sentido, o SXSW 2026 parece menos interessado em prever o próximo grandeavanço tecnológico e mais dedicado a interpretar as transformações culturais e comportamentais que já estão em curso.
Se os relatórios de tendências perderam força, talvez seja porque o futuro não possa mais ser capturado apenas por dados, gráficos ou projeções. Talvez ele precise ser entendido, antes de tudo, como um fenômeno humano.