Opinião WW

Como habitei dois mundos e construí o meu próprio

O caminho das pessoas que viveram o cenário analógico e o digital e seus mecanismos de adaptação a uma nova condição civilizatória 

Rita Almeida

Head do Lab Humanidades, da AlmapBBDO 8 de janeiro de 2026 - 14h54

(Crédito: Shutterstock)

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Recentemente, participei de um evento muito leve e gostoso do Grupo de Planejamento que se chama “Strategy Nights”. O tema era “deslinkedize-se”, ou melhor, falar sobre alguma coisa que não é sua ocupação principal. O Strategy Nights é um espaço de trocas e conversas reais, que convida profissionais de diferentes áreas para falar de tudo, menos de “jobs”. Foi superinteressante e alguns amigos foram lá falar sobre coisas aleatórias, mas altamente inspiradoras.  

Minha escolha foi falar da minha trajetória pessoal e o fato de eu ter vivido e sobrevivido a dois mundos bem diferentes: 30 anos no analógico e 30 anos no digital. Nas últimas décadas, estamos vivendo algo que a Marilena Chauí chama de “um novo marco civilizatório”, em função da digitalização da vida e das relações. Um mundo onde nos tornamos narcisistas no sentido de que só existimos se formos notados pelos outros. Essa medida externa da nossa existência é altamente complexa e flerta o tempo todo com a ansiedade e depressão, já que a única coisa que não podemos controlar, por mais que a gente deseje, é a nossa aceitação externa.  

Para trazer um pouco a dimensão da diferença entre esses dois mundos, vamos pensar sobre os dados. Em 2010, o mundo produzia dois zettabytes de dados por ano. Isso já era uma revolução. Hoje, 15 anos depois, a projeção dos dados IDC’s Data Age 2025 Study é que produzimos 160 zettabytes anuais – 80 vezes mais. Pensem nisso: o volume de dados que era produzido em um ano inteiro, em 2010, agora é produzido em duas semanas.  

Além disso, há três anos, foi a vez do ChatGPT iniciar uma nova revolução da IA, que não conseguimos sequer imaginar onde a tecnologia vai ser capaz de chegar e para onde irá “empurrar” os seres humanos. E, novamente, o mundo nos pede uma adaptação complexa. Vamos passando por elas e experimentando novos cenários, comportamentos, ferramentas e estilos de vida em um mundo infinitamente mais complexo e difícil de navegar. 

Nesse contexto, poucas coisas continuaram iguais enquanto muitas se transformarame eu gostaria de trazer essa reflexão, começando pelas que permaneceram: que não mudou são os fundamentos dos laços mais estreitos que a vida nos traz: família, pertencimento e relacionamento. Esses são os valores mais importantes e que unem o desejo e o coração do mundo inteiro. Eles são apontados pelo estudo Valuegraphics, de David Allison, que construiu o primeiro inventário global de valores humanos, com mais de 1 milhão de entrevistas com populações de 180 países. 

É para isso que a gente vive, independente do nível que a tecnologia atinja e do quanto ela possa mudar nosso comportamento: o que David Allison chama de “valores do pertencimento” não mudaram até hoje. A questão é que praticamente tudo o mais mudou ao atravessarmos a ponte do século 20 para o 21. 

A comunidade era geográfica: vizinhos, colegas de trabalho e o pessoal do clube, além da família. As relações eram mediadas pela presença física e por um conjunto de referências culturais compartilhadas (o mesmo jornal, a mesma novela das 20h). Hoje, a comunidade é tribal e baseada em afinidades, não em geografia. As pessoas se unem por interesses específicos e pautados pelos algoritmos. 

Existem mais de 10 milhões de grupos no Facebook que, ao mesmo tempo em que geram pertencimento, geram também polarização da nossa bolha contra as outras. A empatia com o outro atrofia, pois ele deixa de ser nosso vizinho com quem discordamos e passa a ser um avatar a ser combatido. Sem perceber, corremos o risco de desaprender a conversar, a escutar.  

Hoje, somos uma população WhatsApp. O Brasil é o segundo maior usuário da ferramenta no mundo, que registra 100 bilhões de mensagens por dia. Uma pesquisa da Opinion Box (2023) mostra que 99% dos brasileiros com smartphone têm o WhatsApp instalado e 80% o consideram sua principal fonte de informação.

Como consequência, nossas relações se tornaram contínuas, mais superficiais e ansiosas, atentos ao check azul de leitura de cada mensagem e à expectativa da resposta imediata, além de derrubar as fronteiras entre o trabalho e a vida pessoal em um “agora” contínuo, sem começo, meio e fim. 

Como veem, minha geração não teve somente que aprender a usar o computador e as diferentes ferramentas tecnológicas ou a controlar a vida pelo celular. O que vivemos foi algo como reaprender a ser, a se relacionar e a viver uma nova configuração da realidade. 

Tive medo. Mas aprendi que precisamos agir para que nossos medos e ansiedades não nos paralisem, não roubem nossos sonhos. E os meus medos e inseguranças, enfrentei com um caminho de paixão pelos aprendizados, vontade, resiliência, curiosidade e persistência.  

Então, existe um caminho para que a gente consiga ressignificar nossos medos. E, para isso, eu fico com um vídeo lindo do Alexandre Coimbraque nos lembra que “o contrário do medo não é a coragem, o contrário do medo é o nós”. Não vamos nos distrair com a tecnologia, temos mesmo é que nos melhorar como civilização, praticar o autoaperfeiçoamento e aprimorar nossa qualidade humana, porque é por meio dela que vamos justamente construir e usufruir desse “Nós”, que pode ser muito maior do que nossos medos.