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Opinião

Guerra de narrativas

Não importa em qual área, com qual missão ou objetivo, tudo o que narramos contribui para alimentar esse embolado ao nosso redor que muitas vezes só engrossa o caldo da ‘fat media’


1 de abril de 2024 - 7h21

(Crédito: Crayon Eater, James Jean/Reprodução)

[3/12] série NÓSemMIM 

Guerra de narrativas – qual nossa responsabilidade como comunicadores em tempos inquietos?

Eita tema espinhoso lotado de NÓS (nos 2 sentidos).

Mas bora lá.

Não importa em qual área, com qual missão ou objetivo, TUDO o que narramos contribui para alimentar esse embolado ao nosso redor que muitas, muiiiitas vezes só engrossa o caldo da ‘fat media’, que não nos nutre, dá indigestão, nos deixa obesos, e nos enfeza (nada contra um conteúdo fast food vez ou outra. Mas você não basearia a nutrição dos seus filhos em fast food, certo?).

Ainda com foco na palavrinha NARRATIVAS, descobrimos que com relação aos negócios só cresce a responsabilidade! Afinal, quando falamos de “confiança”, as empresas são vistas no topo da instituições.

Obviamente, isso traz muito mais responsabilidade social e consequentemente aumenta os desafios de comunicação das marcas, que precisam priorizar também os valores que cada uma traz para o caldo social.

E quando incluímos o poder capital da nossa indústria para propagar ideias para milhões aqui e no mundo, talvez você realmente ouça um chamado.

E, sim, isso faz aumentar ainda mais o volume e a exposição de conteúdos.

MAS… (tem sempre um “mas”) como fazemos para estarmos menos reféns da “fat media” e mais conectados ao que nos nutre no meio de tanta exposição? 

Quais perguntas temos que nos fazer?

Em tempos inquietos como os nossos, precisamos cada vez mais de bons oráculos para nos guiar nestes vários desafios que se apresentam.

Todo bom oráculo depende de uma boa pergunta. 

Boas perguntas precisam de espaço, de silêncio, para serem formuladas.

Portanto é o SILÊNCIO que abre espaço para as boas PERGUNTAS.

Porém, rola um incômodo aqui: não estamos acostumados a silêncios e, de certa forma, temos medo deles. No mundo ocidental, é considerado estranho ou rude não falar por um longo período de tempo. Portanto, o silêncio que precede a palavra falada pode criar tensão.

No cinema, foi a sobreposição do som à imagem que nos permitiu compreender o lugar do silêncio nas narrativas. Segundo o cineasta Robert Bresson, com o aparecimento do som na sétima arte surgiu, concomitantemente, uma valorização do silêncio enquanto elemento dentro da ação narrativa.

O silêncio no filme tem um papel profundo no desenvolvimento do tom emocional de uma narrativa. Quando você retira uma parte do som de uma cena, cria um vazio que os membros do público devem preencher por conta própria para compreender o que estão vendo. Preencher os espaços em branco faz com que o espectador se torne mais intimamente ligado ao filme, deixando-o mais emocionalmente exposto e vulnerável.

Abro aqui a provocação: 

Será que é possível pensarmos SILÊNCIO sem nos sentirmos tensos, expostos ou vulneráveis?

…………………pausa pra respirar………………………………………

Recentemente voltei de uma viagem ao Japão, onde tive a oportunidade de vivenciar a palavra-chave desta esplêndida cultura: HARMONIA. E o que muitas vezes compõe o resultado dela é o SILÊNCIO. 

A cultura do silêncio não é só um sinal de respeito pelos outros e contribuição para um ambiente mais harmonioso, é também o tempo para a percepção, apreciação, reflexão. Eles usam a expressão japonesa “Ma”, representado pelo ideograma 間, um elemento japonês que significa um ENTRE-espaço a partir do qual acontece o processo de comunicação.

Lembram dos ENTRES que comentei no artigo anterior ?

O “MA” está presente e enaltecido em quase tudo e de forma intuitiva nas relações interpessoais, artes, arquitetura, objetos… objetos?! Sim, procure as maiores qualidades, por exemplo, de uma mala no Japão. Sabe o que aparece em primeiro lugar? A mais silenciosa!

Tudo parece fazer sentido dentro dos significados do “Ma” na dinâmica de suas vidas, como, por exemplo, como se cumprimentam, na distância entre os corpos durante o gesto.

É fácil notar também, na arquitetura japonesa, como há esses espaços vazios e indeterminados que não existem na arquitetura ocidental. Diferente de nós, que ocupamos TUDO – todos os espaços da casa, todas as brechas no meio de uma conversa, todo o tempo enlouquecidos na roda-viva do FOMO (“fear of missing out” ou, em português, “medo de ficar de fora”).

Pra resumir o “Ma” em toda sua abrangência, trago a pesquisadora e professora da Universidade Federal de São Paulo, Michiko Okano, de origem japonesa e a maior estudiosa do “Ma” no Brasil. Segundo ela, o “Ma” se manifesta de 3 formas distintas: 

  1. vazio; 
  2. espaço ENTRE, isto é, uma zona de suspensão;
  3. espaço e tempo, como uma preparação para se chegar a um novo lugar. 

Será que nesta mudança de paradigma que estamos vivendo é possível criar esse espaço do vazio, esse ENTRE, nas comunicações e nas narrativas?

Será que conseguiríamos criar o SILÊNCIO necessário para sermos, enfim, ouvidos? 

#dica: lembrando que as grandes revoluções começaram silenciosamente.

……

Como prometi no artigo anterior, ao estar no W2W com essa série que soma os NÓSemMIM, é bem pertinente trazer também highlights de algumas das aladas, talentosas profissionais que fazem parte da ASAS.BR.COM, que me (nos) inspiram.

Começo com a sagaz Patrícia Weiss, que nos dá o norte: “o grande desafio das marcas é conseguir se colocar de verdade no lugar das pessoas. E essa conversa precisa ter muito mais responsabilidade, amplitude e profundidade para se tornar uma narrativa com verdade, relevância e significado. As marcas que ousam transformar a cultura constroem legado”.

Pra saber se você é um autêntico executive doer, segue a ótima reflexão no último artigo aqui da queridíssima Chiara Martini sobre o “entendimento de quem a gente é e o que quer é o que nos leva adiante”.

Um bom complemento vocês vão encontrar nas palavra da Suzana Apelbaum: “respeitar a inteligência da audiência, prezar por qualidade e autenticidade. A qualidade virou um negócio não negociável. E quanto mais autêntico é o conteúdo, mais eficiente ele é. Todo mundo tem medos, desejos… e combinar isso com um olhar sensível e leal à historia, em sintonia com o seu tempo, faz a narrativa chegar no coração de forma mais impactante”.

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