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Opinião

Metas: estímulo ou aflição?

Nessa época, muitas empresas começam a fechar seus objetivos e fazer o balanço do ano. E é aí que bate um mini desespero, com tanto ainda a ser feito


17 de outubro de 2023 - 6h19

Um dia desses vi um meme no Instagram que me deixou muito reflexiva. Era um reels de um desfile de moda, em que o modelo andava pela passarela usando uma roupa que se assemelhava muito a papéis amarelos. A legenda dizia: “os meus post-its de metas de 2023 indo atrás de mim para refrescar a minha memória”.

E aí eu me dei conta de que, sim, faltam apenas três meses para o ano acabar. Os supermercados já estão vendendo panetones e daqui a pouco começa o embate “team passas” x “haters de passas” nas mídias sociais.

Antes que a Simone comece a perguntar o que fizemos e que nossa agenda fique cheia de confraternizações marcadas, tem outro evento importante: o fechamento das metas anuais.

Nessa época, muitas empresas começam a fechar suas metas e fazer o balanço do ano. E é aí que bate um mini desespero, com tanto ainda a ser feito, objetivos que ficaram pelo caminho e que não se concretizaram da forma esperada.

Com isso, fiquei pensando na maneira como a gente lida com as metas corporativas. Será que a existência delas nos estimula ou nos aflige? Ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo? E como lidar quando trazemos essa questão do cumprimento de metas também para a nossa vida pessoal?

São muitas perguntas e poucas respostas. E eu tenho a impressão de que isso também é ainda mais complicado para as mulheres. Afinal, nós somos ensinadas a sempre fazer o máximo, a dar o nosso melhor 100% das vezes e a nunca reclamar de nada.

De nós, é exigido nada menos do que a perfeição em todas as situações. E, ao menor deslize, não faltam dedos apontados para a nossa cara e críticas – nem sempre construtivas ou bem-intencionadas.

Afinal, quem nunca ouviu essas frases batidas sobre ter de matar um leão por dia, e ainda sair por cima de salto alto?

Inclusive, isso me lembra um outro dado que vi recentemente e que não me surpreendeu nem um pouco. De acordo com uma pesquisa da EDC, as mulheres sofrem mais de burnout do que os homens, e se sentem mais sobrecarregadas. Isso aconteceria, em partes, porque tendemos a nos comprometer e a nos engajar mais no trabalho.

Isso para não falar da jornada dupla que muitas de nós têm que fazer, equilibrando o papel de mãe-dona-de-casa e o de trabalhadora, que também colabora muito para o esgotamento.

Somando esses dados à questão das metas, fico me perguntando se, ao nos esforçarmos tanto para atingi-las, o quanto é feito pela satisfação de entregar um trabalho bem-feito e o quanto é para nos provarmos, para buscar validação no nosso próprio trabalho e demonstrar nosso valor.

Se o dado da pesquisa estiver correto e nós, de fato, formos mais comprometidas e engajadas com nossos trabalhos – a ponto de apresentar sintomas de burnout -, será que parte disso é devido ao fato de termos sido treinadas para sempre agradar?

É a mesma história da síndrome de impostora: para cada mulher brilhante que não se acha boa o suficiente para ocupar determinada posição ou assumir determinada responsabilidade, tem pelo menos um homem com capacidade igual ou menor com a certeza de que é a pessoa certa para aquele cargo ou tarefa.

Aliás, para quem gosta de estatísticas, tenho outro dado interessante. Sabe quando você vê aquela vaga dos sonhos no LinkedIn, o job description é simplesmente a sua cara, mas falta um requisito ou dois da lista e você desiste de se candidatar? Pois bem, de acordo com o relatório Gender Insights Report da própria plataforma, as mulheres tendem a se candidatar a uma vaga somente quando preenchem 100% dos requisitos, enquanto os homens já se consideram aptos se atenderem apenas a 60% deles.

Em outras palavras: nós nos cobramos mais. Provavelmente porque também somos mais cobradas e temos que provar nosso valor o tempo todo. Muitas vezes, sequer recebemos os créditos pelo nosso trabalho e nossas ideias! Como isso não poderia resultar em insegurança?

Enfim, tentando responder à pergunta do título, acho que as metas me servem de estímulo, contanto que não sejam irreais. Parece estranho precisar lembrar disso constantemente, mas o fato é que não somos, e nem temos que ser, perfeitas. E deveríamos parar de tentar ser o tempo todo.

Minha mensagem de quase-fim-de-ano é: que todas as metas corporativas e deadlines não nos façam esquecer das metas que ninguém nos cobra, mas que fazem toda a diferença na nossa vida: ler mais por prazer, encontrar os amigos com mais frequência, cuidar mais de nós mesmas, passar mais tempo brincando com nosso cachorro e nutrir as relações que realmente nos importam. No fim, esses são os verdadeiros KPIs de sucesso.

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