O algoritmo e o espelho
O que está por trás da suspeita de que o algoritmo do LinkedIn estaria "suprimindo" o alcance de posts de mulheres?

(Crédito: Shutterstock)
Como C-level e mulher, navego diariamente por um ecossistema corporativo que, embora em evolução, ainda apresenta desafios sutis e complexos à liderança feminina. Minha crença sempre foi clara: a representatividade não é apenas uma questão de justiça social, mas de inteligência de negócio. Marcas que advogam por mulheres e se posicionam contra o machismo não estão apenas do lado certo da história, mas também dialogando com um público consumidor poderoso e decisivo.
É sob essa ótica que analiso um fenômeno recente e perturbador, brilhantemente reportado pelo Valor Econômico: mulheres que, para garantir visibilidade profissional, estão alterando seu gênero para “masculino” em seus perfis no LinkedIn.
A matéria revela uma suspeita que, para muitas de nós, soa dolorosamente familiar: a de que o algoritmo da plataforma, talvez não por intenção, mas por um vício estrutural, estaria “suprimindo” o alcance de posts de mulheres, em especial as não-brancas. Profissionais como Megan Cornish e Aceil Haddad fizeram o teste e viram suas visualizações dispararem em até 400% após a troca. Elas não mudaram suas competências, apenas o pronome pelo qual o sistema as identificava.
O que essa “solução” improvisada nos diz? Primeiro, ela expõe uma falha gritante na promessa de meritocracia digital. O LinkedIn, que se posiciona como a grande vitrine do talento profissional, pode estar, na verdade, reproduzindo os mesmos vieses inconscientes que tentamos combater fora das telas. Como afirma a ativista Cindy Gallop na reportagem, essa “supressão algorítmica equivale a opressão econômica”. Em um ambiente onde a visibilidade é capital, ser invisibilizada é ser descapitalizada.
Segundo, a atitude dessas mulheres é um ato de resistência silenciosa. Não é um ataque, mas uma adaptação estratégica e reveladora. Elas não estão buscando confronto, mas contornando um obstáculo com as ferramentas que têm. É a versão digital do que muitas de nós aprendemos a fazer em salas de reunião: modular o tom de voz, escolher as palavras com mais cuidado e, por vezes, silenciar nossas próprias conquistas para não sermos vistas como “agressivas”. Estudos citados no próprio artigo confirmam que as mulheres são, culturalmente, ensinadas a não fazer alarde sobre suas realizações.
O LinkedIn, em sua defesa, nega que o gênero seja um fator de ranqueamento e atribui a queda de alcance ao aumento exponencial de posts na plataforma. É uma explicação plausível, mas incompleta. A questão não é se o algoritmo foi programado para ser machista, mas se ele foi treinado com dados que refletem uma sociedade que ainda é. Se o sistema aprende o que é “relevante” com base em interações passadas, e essas interações favorecem um estilo de comunicação predominantemente masculino, o resultado é um ciclo vicioso de invisibilidade.
Para marcas e lideranças, a lição é profunda. Não basta criar campanhas que celebrem as mulheres. É preciso garantir que nossos sistemas, processos e tecnologias internas não estejam, silenciosamente, sabotando essas mesmas mulheres. É nosso dever questionar os algoritmos que usamos, as plataformas em que investimos e a cultura que perpetuamos.
A luta pela equidade não se trava apenas nos grandes palcos, mas também nos códigos-fonte de nossas redes sociais. O que acontece no LinkedIn não é um problema do LinkedIn; é um espelho de todos nós. E a reflexão que ele nos devolve exige uma resposta crítica, estratégica e, acima de tudo, consciente.