O grupo de Facebook que virou negócio, com Daniele Mattos 

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O grupo de Facebook que virou negócio, com Daniele Mattos 

A falta de diversidade racial em agências levou a empreendedora a criar a Indique Uma Preta, rede de indicação entre mulheres negras 


4 de janeiro de 2024 - 14h16

Daniele Mattos é cofundadora e sócia da Indique Uma Preta (Crédito: Divulgação)

Com o intuito de trazer mais uma mulher negra para estagiar na agência em que trabalhava, Daniele Mattos criou um grupo no Facebook em 2016 chamado “Indique Uma Preta”. Com o crescimento orgânico da plataforma, ela e suas sócias começaram a propor discussões, eventos e encontros presenciais entre as membras. Em 2020, a empreendedora decidiu dedicar-se integralmente ao projeto, que cresceu e se tornou uma consultoria de diversidade e inclusão, que busca desenvolver, capacitar e conectar a comunidade negra com o mercado de trabalho. 

Nesta entrevista, Daniele Mattos fala sobre sua carreira profissional, o começo e o crescimento do Indique Uma Preta, seu estilo de liderança e o momento em que fez a transição de colaboradora para empregadora. 

Como foi sua jornada profissional até aqui? 

Eu morava em uma cidade do interior de São Paulo, São José dos Campos, onde comecei minha carreira numa agência de publicidade, na área de business intelligence (BI) e análise de dados de redes sociais. Depois, mudei-me para São Paulo e estudei Comunicação Social com habilitação em relações públicas. Ao longo desse percurso, passei por diversas agências de publicidade, tendo clientes como Avon, Netflix e Whirlpool, que detém marcas como Brastemp, Consul e KitchenAid. 

Na Whirlpool, aprofundei meu envolvimento na comunicação institucional, trabalhando em aspectos como marca empregadora, relacionamento com colaboradores e stakeholders estratégicos da instituição. Ao retornar ao mercado de agências, foquei minha atuação na área de cultura, desempenhando o papel de gerente de projetos especiais de diversidade e inclusão na Mutato. 

Paralelamente a essas experiências, desde 2016, administrava a Indica Uma Preta, um coletivo e grupo de WhatsApp que criei enquanto ainda atuava com BI e planejamento. Essa iniciativa nasceu da crítica à ausência de mulheres negras na indústria criativa e de comunicação. Mesmo ao progredir na carreira de planejamento e cultura, consegui integrar a Indica Uma Preta às minhas atividades, usando-a como canal para divulgar ações da agência e oportunidades de emprego. 

Minha última passagem pelo universo das agências foi na área de cultura, encerrando esse capítulo em 2020. Desde então, dedico integralmente meu tempo como sócia cofundadora da Indique Uma Preta, que hoje, para além dos grupos nas plataformas digitais, funciona como uma consultoria de diversidade e inclusão. 

Como a Indique Uma Preta cresceu e se tornou o que é hoje? 

Em 2016, criei um grupo no Facebook com a intenção de indicar uma pessoa para uma vaga de estágio que havia surgido na agência em que trabalhava na Mutato. Ao postar a vaga, percebi que as notificações no meu Facebook continuavam surgindo, com mulheres que pediam para entrar no grupo e compartilhavam experiências sobre a dificuldade de se inserir no mercado das agências.  

Essas interações revelam a dificuldade que muitas mulheres negras enfrentam para conseguir oportunidades melhores e esclarecer dúvidas sobre carreira. Foi a partir desse momento que a Indica Uma Preta começou a se consolidar como um espaço para superar esses desafios. A comunidade cresceu organicamente, e iniciamos encontros e cursos para abordar temas específicos, como planejamento estratégico criativo.  

A partir daí, a Indique Uma Preta evoluiu, ampliando suas atividades para além do recrutamento e seleção, oferecendo cursos, doações de bolsas de estudo, rodas de conversa e eventos mensais. A essência da Indique Uma Preta é promover o desenvolvimento e a diversidade, além de proporcionar oportunidades de diálogo e crescimento para a comunidade negra.  

Em paralelo, a consultoria Indique foi criada para oferecer outros serviços, como pesquisas de mercado, criação de conteúdo, eventos, programas de estágio, palestras e workshops sobre diversidade e inclusão. Por meio das nossas atividades, buscamos potencializar o repertório, a autoestima e as oportunidades de carreira para a comunidade negra. 

Como você descreve seu estilo de liderança? 

Sou bastante horizontal. Priorizo a troca constante com minha equipe para entender se as tarefas e os projetos estão alinhados com suas expectativas e se fazem sentido para eles. Antes de apresentarmos algo ao cliente, gosto de debater ideias internamente, proporcionando um ambiente colaborativo. 

Uma característica importante é dar protagonismo aos membros da equipe que lideram projetos específicos. Se alguém do meu time esteve à frente de um projeto, é essa pessoa que terá a oportunidade de apresentá-lo ao cliente, criar um videocase e conduzir uma palestra sobre o assunto. 

Além disso, adoto uma abordagem co-criativa. Em vez de enviar um briefing extenso por e-mail, prefiro iniciar uma conversa com a pessoa, construindo o briefing juntos, estabelecendo metas e objetivos em conjunto. Acredito que essa abordagem colaborativa facilita o alcance de deadlines e a definição de KPIs, contribuindo para a construção conjunta de projetos. 

Qual foi o maior desafio da sua carreira até o momento? 

A transição entre ser uma colaboradora em agências e me tornar uma empresária, mais especificamente, uma empregadora. A dificuldade estava em romper com a ideia convencional de empreendedorismo, muitas vezes associada a homens brancos com heranças e extensa carreira formal. 

Antes de iniciar essa jornada empreendedora, eu não tinha a figura de uma mulher negra jovem à frente de um negócio como referência. A falta de estímulo ao empreendedorismo ao longo da vida contribuiu para que eu não considerasse essa possibilidade. O desafio significativo foi mudar minha perspectiva em relação ao empreendedorismo, reconhecendo minhas habilidades empreendedoras, mesmo quando não me via nesse papel. 

Após superar essa barreira, o próximo desafio foi estabelecer a empresa. Nesse aspecto, o mérito não é apenas meu, pois conto com duas sócias que compartilham e lideram esse desafio junto comigo. A presença dessas mulheres empreendedoras é fundamental para a condução bem-sucedida dos projetos e trabalhos que realizamos hoje. 

Atualmente, enfrentamos diversos desafios, como a estratégia de negócios e a busca pela maturidade do nosso empreendimento. No entanto, começar com poucas referências e um repertório limitado em negócios e empreendedorismo foi, sem dúvida, um grande obstáculo que estou feliz por ter superado. 

Qual é o maior desafio que as empresas enfrentam atualmente na questão da diversidade e inclusão? 

Percebo uma evolução nas conversas sobre diversidade, especialmente nos anos de 2020 e 2021, impulsionadas pelo incidente envolvendo George Floyd. No entanto, não considero que o aumento no volume de discussões naqueles anos tenha gerado resultados satisfatórios em termos de diversidade e inclusão na nossa indústria. Muitas empresas acreditam erroneamente que a realização de diversas conversas e treinamentos resolve a questão, quando, na verdade, não é o caso. O grande desafio persiste, pois as pessoas negras ainda não são desenvolvidas da maneira adequada no mercado de trabalho, especialmente quando se trata de cargos de liderança. 

Um aspecto crucial é a falta de canais sérios de denúncia de casos de racismo no ambiente de trabalho. Muitos colaboradores desconhecem a existência desses canais, e as lideranças frequentemente não têm protocolos claros para lidar com situações de racismo. Nos últimos anos, especialmente em 2023, testemunhamos campanhas e situações racistas recorrentes no mercado. A perpetuação desse problema exigirá a responsabilização de pessoas brancas e a partilha do poder de decisão com indivíduos que ainda não ocupam cargos de liderança. 

O cenário ideal, na minha perspectiva, envolve a combinação contínua dessas conversas, que não devem ter uma periodicidade limitada, como apenas em novembro ou duas vezes ao ano. É fundamental transformar essas discussões em políticas de diversidade e inclusão, integrando-as a metas claras, para avançarmos efetivamente. O desafio atual reside em traduzir palavras em ações concretas, não apenas no ambiente de trabalho, mas na sociedade como um todo. 

Qual conselho você daria para uma jovem empreendedora negra que está começando seu negócio? 

Em primeiro lugar, destaco a importância de cuidar da saúde mental, algo crucial para pessoas negras em situações vulneráveis. Muitas vezes, focamos tanto na sobrevivência que aceitamos qualquer oportunidade que surja, visando garantir nosso sustento e o de nossas famílias. Enquanto as pessoas brancas muitas vezes ascendem individualmente, nossa ascensão é coletiva, envolvendo outras pessoas que avançam conosco. Para tornar esse processo sustentável, é imprescindível zelar pela saúde mental. Esse é o primeiro ponto.  

Em segundo, precisamos construir uma rede de apoio sólida. Ter mentores confiáveis com quem possamos contar é crucial. Sempre tive o forte apoio de ex-chefes ao longo da minha vida, recorrendo a eles para esclarecer dúvidas e pedir conselhos sobre como abordar determinadas situações. Além disso, contar com amigos, colegas e pessoas próximas para compartilhar angústias também é um ponto fundamental. 

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