O papel das marcas nos casos Robinho e Daniel Alves

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Blog da Regina

O papel das marcas nos casos Robinho e Daniel Alves

É o momento de romper o pacto do silêncio com relação a essa situação e iniciar um processo pedagógico, reparador e urgente


22 de março de 2024 - 11h51

(Crédito: Divulgação)

Sou mãe de dois adolescentes que são apaixonados por futebol e é nessa condição, inicialmente, que observo com muita tristeza as notícias dessa semana envolvendo os jogadores Robinho e Daniel Alves, ambos condenados por estupros, respectivamente, pelas justiças italiana e espanhola.  

Só para contextualizar, Robinho, ex-atacante do Santos, do Real Madri, do Manchester City e do Milan, foi preso nesta quinta-feira 21, na cobertura onde morava em Santos, por estupro coletivo do qual participou em 2013, contra uma mulher albanesa na Itália. Foram dez anos que separaram o crime e a pena, que será cumprida no complexo penitenciário em Tremembé, no interior de São Paulo. Nos últimos dois anos, já condenado pela Justiça italiana, permaneceu em liberdade no Brasil, onde levou uma vida normal, com direito a praia, futebol e churrasco. Isso porque o Superior Tribunal de Justiça (STJ) recebeu a demanda da justiça italiana para que a pena fosse cumprida no Brasil, que foi acolhida pelo STJ um dia antes da prisão do agora ex-jogador. 

No mesmo dia, na quarta-feira 20, a Justiça de Barcelona aceitou pedido de habeas corpus da defesa de Daniel Alves mediante o pagamento de fiança de 1 milhão de euros (R$ 5,4 milhões). O ex-lateral da seleção brasileira de 2006 a 2022, com atuação em grandes times nacionais e internacionais como Barcelona, Juventus, Paris Saint German e São Paulo foi condenado há menos de um mês a quatro anos e meio de prisão. Como seus bens estão bloqueados, até o fechamento deste texto, seus advogados procuravam empréstimo para levantar o recurso e dessa forma libertar seu cliente.  

O silêncio sepulcral da CBF e de dirigentes do futebol brasileiro e internacional sobre ambas as situações é gritante. Os dois casos não são isolados. Fazem parte de um padrão de comportamento de um número grande de jogadores acusados, processados ou condenados por crimes de violência sexual e estupro no Brasil e no exterior. Leila Pereira, única mulher presidente de um clube da primeira divisão, rompeu esse silêncio ao dizer que ambos os casos representam “um tapa na cara das mulheres.” Ao fazer isso, entrou para a história. 

O padrão do comportamento das lideranças do futebol também se repete. Silêncio e acobertamento. Vale lembrar que o Santos chegou a anunciar a contratação de Robinho em 2020, e se dispôs a repatriá-lo da Itália mesmo que, na época, ele já tivesse sido condenado em primeira instância por estupro. A decisão só foi revista depois que patrocinadores do clube ensaiaram uma debandada caso a incorporação de Robinho não fosse revertida. 

De novo agora, é o momento das marcas que patrocinam a CBF pressionarem a entidade máxima do futebol brasileiro não só a romper o pacto do silêncio com relação a essa situação, quanto a apresentar um plano de ações educativas para discutir abertamente esse tema e propor um letramento aos jogadores – da base ao estrelato – sobre temas como equidade de gênero e violência contra a mulher. Um processo pedagógico, reparador e urgente.  

Se o futebol e suas estrelas ainda são produtos de marketing, que oferecem viabilidade e servem de plataformas importantes para as marcas se comunicarem com seus públicos, elas precisam usar literalmente o poder do capital para transformar o esporte em um ambiente mais acolhedor e menos machista. Em geral, mudanças acontecem a partir de dois grandes músculos do ser humano: o coração ou o bolso. No caso do futebol, é sempre pelo bolso. Que o fale a justiça espanhola.  

Está mais do que na hora das marcas que patrocinam o futebol brasileiro se posicionarem sobre um fenômeno recorrente que pode prejudicar suas reputações, em última instância. Sou otimista e ainda acredito que uma mudança está em curso e que meus filhos, quando ficarem adultos, poderão falar desse tipo de notícia como as dessa semana como algo que ficou para trás.  

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