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Opinião

Quem faz sua carreira?

Já parou pra pensar que algumas pessoas têm uma certa "personalidade" e depois que entram numa organização incorporam aquela cultura de modo que vivem uma "nova persona" 24 horas por dia?


8 de janeiro de 2024 - 14h09

(Crédito: Lemberg Vector studio/Shutterstock)

Comecei a escrever esse artigo e entendi que preciso dividi-lo em fases, como episódios de uma série de TV. Isso porque essa pauta contempla tantas camadas importantes que seria leviano demais resumi-la.

Sabe aquelas afirmações populares que tomamos como verdade, mas que na prática não acontecem bem assim? Pois é, será que nossa carreira é a gente mesmo quem faz? E se a resposta for sim, estamos considerando todo o contexto? As barreiras visíveis e imperceptíveis?

Vamos dar um passo atrás… por que me senti motivada a escrever sobre isso? Um amigo me disse o seguinte: “Já parou pra pensar que algumas pessoas têm uma certa ‘personalidade’ e depois que entram numa organização incorporam aquela cultura de modo que vivem uma ‘nova persona’ 24 horas por dia? Tornando-se muitas vezes irreconhecíveis… até pra elas?”

Seria um problema ou é algo natural e por vezes até positivo no nosso processo de transformação como pessoa (integral)?

São tantas nuances… vamos lá!

Existe uma premissa de que a “sua carreira é você quem faz”, mas nas entrelinhas, no pacto silencioso do mundo corporativo não é, não.

E é aqui que eu vou fazer um recorte bem específico, como comentei no início do texto. Pra dividir o assunto em fases nesse roteiro da minha cabeça, esse episódio se chamará:

Episódio 1: Você não deve aparecer mais que a empresa onde trabalha

É no modo velado, mas sabido, sentido, que são ditas coisas como: “você não deve aparecer mais que a empresa onde trabalha”, que para além das suas 8 horas de serviços prestados também estão implícitas suas 24 horas vivendo o CNPJ do seu contratante, e isso implica diretamente na sua imagem e influência social.

Não é raro ver as pessoas tomando isso como verdade absoluta. Suas redes sociais já não são mais o reflexo da sua vida comum e pessoal, seu LinkedIn tornou-se publi gratuita para instituição que você trabalha, porque você faz parte dela e ela faz parte de você. As citações e agradecimentos à alta liderança buscam no fundo um reconhecimento, porque é assim que todo mundo faz, logo, é assim que a gente acredita que deva fazer também e faz.

Check para o funcionário ideal, adequado à cultura da empresa, aquele com fit organizacional, a pessoa pra se apostar!

No fundo, estaríamos todos desesperados pra mostrarmos o quão incrível somos? Presos numa busca incansável para sobreviver no mundo corporativo, onde já não basta uma entrega com excelência e qualidade? Essa é a fórmula ideal?

Essa linha tênue entre entregas estabelecidas em contrato e abuso da sua imagem e liberdade para desenvolver-se em outros caminhos é algo pouco falado abertamente e devemos sempre nos questionar: essa postura serve a quem? Negar outras possibilidades de existência serve a quem?

Para deixar claro, é indiscutível que a ética e a transparência nas relações de trabalho devam ser a base para que não haja conflitos de interesse. “O combinado não sai caro”, tá aí outra afirmação sobre alinhamento de expectativas de ambos os lados. Na minha opinião, algo que funciona muito bem: transparência, liberdade, confiança e maturidade nas relações.

Vamos a exemplos práticos: se ao longo da carreira você é reconhecido por algumas pautas, pela sua trajetória, se você fala ou escreve sobre determinados assuntos, se eventualmente é chamado para entrevistas e palestras, se é professor em curtos períodos ou tem possibilidade de fazer qualquer outro trabalho fora do horário comercial sem comprometer suas entregas com a organização onde presta serviços, isso seria um problema ou poderia ser considerado inclusive uma vantagem? Poderia ser uma oportunidade para ambos os lados, mas principalmente pra nós, responsáveis pela nossa história de vida?

Segue o fio.

Outra motivação para escrever esse texto veio da escuta de muitos profissionais que apontam serem ofuscados pela estratégia de algumas empresas e seus microgerenciamentos feitos por outros profissionais, que, ao invés de enxergarem o potencial do uso da imagem desses colaboradores, optam por proibir e controlar suas aparições por um receio infundado de ofuscar a imagem da empresa ou de outros executivos.

Sem base, sem dados ou ciência que apoiem esta afirmação, apenas um controle abusivo nessa relação de poder que vai além das letras miúdas da CLT para reger a carreira e a vida de seus colaboradores.

O convite aqui é para uma reflexão de quem ganha e quem perde nesse sistema que elege seus preferidos e controla as narrativas.

Então eu volto à pergunta: quem faz a sua carreira?

Quem determina até onde o seu sonho vai? Até onde você pode brilhar?

Essa é a lógica do sistema e a gente aceita, por um tempo ou para sempre, convencendo-se de que é a regra do jogo. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” ou boletos para pagar. E o mais triste, na minha opinião, é porque de alguma forma a gente acaba acreditando que a instituição sabe o que melhor pra nós, pra nossa vida, e a gente aceita, muitas vezes sem se questionar.

Qual é o preço em permitir que controlem sua vida e sua carreira?

Talvez essa resposta venha com o passar dos anos, naquele momento em que você, já desconectado dos seus sonhos, se pergunte: “como eu vim parar aqui? Esse era o meu projeto de vida ou o dos outros?”. Talvez nesse momento você tenha a sensação de que não há mais tempo, mas como sou otimista e com mania de ter fé na vida, como diria Milton Nascimento… sempre acredito que há tempo!

“Escolhi saber tudo sobre mim para nunca mais aceitar que alguém queira me ensinar quem eu sou”, Wilson Gonzaga.

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