Sua alma gêmea pode ser uma IA
Com o simples comando “coloque um namorado que combine comigo”, uma nova tendência começa a se espalhar silenciosamente pelas redes

(Crédito: Imagem criada por IA/ChatGPT)
Com o simples comando “coloque um namorado que combine comigo”, uma nova tendência começa a se espalhar silenciosamente pelas redes. Corações reais passam a dividir espaço com afetos virtuais, criados sob medida, esteticamente impecáveis, emocionalmente disponíveis e prontos para ocupar o mural dos sonhos digitais.
A promessa é sedutora: o casal ideal, construído por algoritmos, sem conflitos, sem rejeições, sem frustrações. Um amor que encaixa no feed, no imaginário e, cada vez mais, no desejo.
O problema é que, à medida que a inteligência artificial evolui, a fronteira entre o que é real e o que é fabricado se torna cada vez mais difusa. As imagens são hiper-realistas, os cenários perfeitos, os gestos convincentes. Torna-se difícil, e às vezes impossível, distinguir ilusão de realidade. Não se trata mais apenas de filtros ou retoques, mas de narrativas afetivas inteiras criadas por máquinas.
Esse fenômeno expõe uma contradição inquietante do nosso tempo. Se por um lado cresce a preocupação legítima com os limites éticos do uso da IA, especialmente no campo emocional e psicológico, por outro, surge um movimento inverso igualmente perigoso: fatos reais sendo desacreditados sob a justificativa de que “isso é IA”.
Fotos, vídeos, flagras e episódios concretos passam a ser questionados, negados ou deslegitimados com a alegação de que seriam criações artificiais, muitas vezes como estratégia de defesa diante de acusações de injúria, difamação ou exposição pública. A tecnologia que deveria esclarecer começa, paradoxalmente, a confundir.
Estabelece-se, assim, um estado permanente de dúvida. Se, antes, o desafio era identificar o que era manipulado, agora o risco é não acreditar mais em nada — nem no que é real, nem no que é falso. A verdade perde solidez, e a confiança se torna um ativo ainda mais escasso.
No campo da comunicação, esse cenário exige atenção redobrada. Marcas, veículos, jornalistas e profissionais de reputação passam a operar em um território onde a prova visual já não é garantia absoluta e onde a narrativa pode ser facilmente sequestrada por versões alternativas, plausíveis e tecnicamente bem executadas.
A pergunta que fica não é apenas se a sua alma gêmea pode ser uma IA. É se estamos preparados, como sociedade, para lidar com relações, memórias e verdades mediadas por algoritmos e para redefinir, com urgência, o que ainda chamamos de real.
Porque, no fim, talvez o maior risco não seja amar uma ilusão. Seja aprender a duvidar de tudo, inclusive daquilo que realmente aconteceu.