O Brasil precisa de mais diversidade racial na mídia

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4 de dezembro de 2017 - 18h15

Em agosto, fui convidado a falar na Convenção da Associação Nacional de Jornalistas Negros (NABJ), em Nova Orleans, em um painel intitulado “Construa seu próprio Império de Mídia”. O painel foi moderado por Mara Schiavocampo, correspondente de um dos mais importantes programas matutinos de notícias da rede de TV americana ABC, o Good Morning America. Meu colega de mesa foi outro ícone da TV e empresário de mídia, Al Roker, do programa Today Show, da NBC.

Foi uma honra incrível, por vários motivos. Desde 1975, a NABJ tem ajudado a unir e alavancar as carreiras e redes de jornalistas, estudantes e profissionais de mídia negros nos Estados Unidos. Foi há 20 anos que participei da minha primeira conferência NABJ como estudante do último ano da faculdade. Foi por meio de sua feira de empregos que fui descoberto pela CBS News e recebi minha primeira grande oportunidade para trabalhar como assistente de produção para a série documental de horário nobre 48 Horas.

Muita coisa mudou nesses 20 anos. Abandonei meu trabalho na CBS, dirigi um filme-documentário premiado de longa-metragem para MSNBC e lancei o portal TheGrio.com – um dos maiores sites de notícias para afro-americanos – que vendi para a NBC Universal. Anos depois, comprei o site de volta para revendê-lo novamente no ano passado para um grande grupo de mídia negra e vim morar no Brasil.

Entrei no negócio de notícias porque queria contar as histórias que conhecia. As histórias da minha comunidade – da América negra, que muitas vezes eram distorcidas ou ignoradas pela mídia convencional americana. Eu estava frustrado com a falta de representação dos negros na indústria e, ainda mais, pela escassez de histórias e perspectivas que genuinamente representavam meu povo.

Embora existam muitas diferenças entre os Estados Unidos e o Brasil, os dois países compartilham uma história racial complicada, onde os negros têm sido excluídos e privados de direitos nos meios de comunicação. Desde o lançamento do primeiro periódico afro-americano conhecido, em 1827, a mídia negra tem lutado para contar às histórias que a mídia geral ignora frequentemente ou simplesmente não consegue ver.

A mídia negra tem nos ajudado, nos EUA, a reconhecer e a celebrar o nosso talento e beleza. Ela criou espaços seguros para conversarmos uns com os outros e formarmos nossas ideias. Ela tem dado oportunidades aos contadores negros de histórias que, de outra forma, não teriam recebido aceitação na indústria tradicional da mídia.

Agora eu vivo no Brasil e me apaixonei pela riqueza da diversidade e da cultura deste país. Vejo tantas histórias incontáveis ​​e tanto talento descartado. A metade da população é afrodescendente, apesar disso, a história completa do Brasil ainda não foi contada.

Minha mensagem para os negros americanos que querem entrar no mercado  de mídia é a mesma que compartilho com os brasileiros negros, que enfrentam ainda menos oportunidades: precisamos criar nossas próprias plataformas e oportunidades. E para aqueles de nós, que operamos dentro dos muros da grande mídia do Brasil, devemos ser defensores ferozes de nossa gente e de nossos agentes de mudança.

A beleza da época em que vivemos é que as redes sociais são um excelente catalizador de oportunidades. Alguém pode criar um vídeo na cozinha de sua própria mãe e obter mais visualizações do que um programa na televisão, e muitos jovens brasileiros negros estão aproveitando ao máximo isso, como os youtubers.

Mas o talento e o brilho dos negros, por si só, não são suficientes. É imperativo que a indústria de publicidade e as grandes marcas do Brasil comecem a valorizar o mercado consumidor negro. Eles precisam investir em novas plataformas que articulem as perspectivas e os interesses da maioria no Brasil. Há muitos estudos e pesquisas demostrando que os consumidores negros respondem de forma mais positiva quando vêem marcas atingindo-os nas plataformas de mídia criadas para eles.

Os atuais gigantes da mídia do Brasil também devem se tornar mais inclusivos e contratar mais talentos negros para a frente e atrás das câmeras, particularmente em papéis de liderança executiva. A grande mídia deve criar espaço para que seus funcionários negros sejam empreendedores mesmo dentro de seu estabelecimento corporativo, que nós, nos Estados Unidos, apelidamos de “intraempreendedores”.

Este é o motivo pelo qual, após vender minha empresa, decidi me mudar para o Brasil, depois de visitá-lo 12 vezes nos últimos quatro anos. Acredito na grandeza desse País e sei que ele ainda não alcançou seu potencial máximo.

Como se tem provado na América do Norte, a mídia negra não torna a fatia da torta menor, mas ela, na verdade, expande as oportunidades ao ativar gênios, inovadores, educadores e artistas negros, que oferecerão novas ideias e soluções para os problemas do Brasil e, posteriormente, provarão a diversidade e riqueza cultural da grandeza desta nação.

Tradução: Marcia Regina

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