O silêncio do Sir

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O silêncio do Sir

À primeira vista, Cannes parece ter agradado a criativos e executivos com as mudanças anunciadas para o festival em 2018. Mas ainda falta uma bênção


22 de novembro de 2017 - 11h04

O Festival Internacional de Criatividade de Cannes anunciou nesta semana um pacote significativo de mudanças vigentes já a partir da próxima edição, a 65a de sua história. Ao longo desse tempo, o festival passou por diversas transformações. A amplitude das alterações para 2018, porém, é a maior de um ano para outro, na era moderna do festival: vai de novas regras para as premiações à redução no número de dias do evento — passando por uma curiosa nova carta de pratos com preços fixos a ser ofertada por restaurantes na cidade.

Não havia outra opção, senão uma repaginada radical, para os organizadores. O clamor por mudanças aumentava a cada ano. Em 2017, o coro dos descontentes engrossou como nunca e avançou sobre os limites da retórica. Divulgada em junho, durante a realização do evento, a decisão do grupo Publicis em não participar do evento no ano que vem (e de nenhuma outra premiação pelo prazo de 12 meses, para concentrar recursos no desenvolvimento de uma plataforma de inteligência artificial batizada de Marcel) acendeu o sinal amarelo para a Ascential Events, proprietária do Cannes Lions.

As declarações subsequentes de Sir Martin Sorrell, de que o WPP colocaria em revisão a sua presença no festival em 2018, por conta dos custos exorbitantes e da dispersão do foco original na criatividade, mostraram que o problema era ainda maior. Antes que a edição 2017 do evento chegasse ao fim, os organizadores anunciaram a formação de um conselho de notáveis e líderes da indústria, com o intuito de debater as melhorias necessárias para o evento.

A julgar pela reação dos criativos entrevistados por Meio & Mensagem, Cannes Lions acertou em cheio nas mudanças de ordem técnica para as premiações. O limite de inscrições em seis categorias por campanha e o novo sistema de pontuação para a disputa de Agência do Ano foram vistos de maneira unânime como uma valorização da criatividade e da excelência de campanhas premiadas com GPs e Leões de Ouro, na contramão da regra anterior, em que a quantidade era um atalho para um lugar de destaque no festival — e uma brecha escancarada para acusações, que agora perdem força, de que os organizadores priorizavam a grana embolsada com as inscrições ao valor essencial do prêmio para seus vencedores.

“O festival chama Cannes Lions, e não Cannes Shortlists”, afirmou Anselmo Ramos ao editor executivo Alexandre Zaghi Lemos. Com quase duas décadas de experiência na cobertura de Cannes, Lemos é outro especialista que viu com bons olhos as mudanças nas regras da premiação.

Já no campo dos negócios, a redução no número de dias em que o evento é realizado, o que acarretou em diminuição também no valor do acesso ao festival, foi a mudança mais contundente. Os investimentos não serão menores apenas para participantes. O novo cronograma irá baratear os custos para a própria Ascential, que terá o desafio de manter sua margem de lucro em um ano no qual não irá faturar com o grupo Publicis. Estima- se que a holding francesa era responsável por aproximadamente 10% das receitas do evento com inscrições em prêmios.

À primeira vista, Cannes também saiu- se bem com os executivos, ao mostrar empatia com os pedidos da indústria da qual se diz um espelho e cujos resultados estão sob pressão dos acionistas. Líderes do Omnicom, do IPG e da Publicis saudaram a demonstração de boa vontade dos organizadores do festival. Até o fechamento desta edição, no entanto, uma peça-chave para o quebra-cabeça de Cannes ainda não havia se manifestado: Martin Sorrell, cuja animosidade em relação ao festival só aumentou desde junho. No mês passado, por exemplo, ele disse ter feito uma série de demandas à Ascential em relação ao evento, mas que as respostas ainda não eram suficientes. Será que as novidades anunciadas mudaram a opinião do homem mais poderoso do mundo da publicidade?

Rusgas à parte, a bênção do CEO do WPP será determinante para as chances das mudanças no Cannes Lions serem bem-sucedidas.

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