Papai Noel, você precisa assistir a The Crown

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Papai Noel, você precisa assistir a The Crown

É única coisa que eu vou te pedir sobre o mercado de comunicação, de PR, das agências, dos clientes, dos influenciadores e redes sociais


21 de dezembro de 2017 - 13h23

Querido Papai Noel,

Pensei muito antes de escrever a cartinha deste ano. Afinal, 2017 deve ter ganho Titanium na subcategoria Ano Bomba do Prêmio Interplanetário dos Tempos de Crise. Aposto que até aí na Lapônia, com esse IDH todo, deve ter sido punk. Significa que eu estava desanimado e, confesso, achando uma perda de tempo te pedir alguma coisa neste ano… Mas hoje eu me dei conta que você sempre me atendeu muito bem nos anos anteriores. Deve ter sido porque eu fui um bom menino. Ou porque eu nunca te pedi um iPhone 8 Plus pelos Correios, sei lá… O ponto é que rolou um ânimo extra agora na reta final de 2017 e decidi te pedir algumas coisinhas.

Só que desta vez eu vou inovar, Papi. Vou começar pedindo algo para você, não para mim. Assista, para ontem, a The Crown, a festejada série da Netflix que conta a história da Rainha Elizabeth II. Esse negócio de séries realmente é algo avassalador, são muitas, então para facilitar sua vida vou dar uma dica: pode começar direto na T2:E2, lá pelo minuto 23, quando o príncipe Phillipe, o Duque de Edimburgo e marido da rainha, vai tentar xavecar uma jornalista e… Bom, sem mais spoilers. Mas vai lá, assiste e me escreve depois se você entendeu a importância de um bom trabalho de public relations (PR) na vida das pessoas. Essa singela cena deixa claro que um dos grandes alicerces da Monarquia Britânica, ao longo dos tempos e sem exagero algum, é o bom e velho PR.

Foto: Reprodução

Eu te falo isso porque parece que muitas pessoas, empresas e instituições não entenderam muito bem a importância dessa nossa atividade em 2017, Meu Bom Velhinho. Sei lá o porquê… Às vezes, as pessoas perderam o sensacional artigo do Pyr Marcondes falando que publicidade é conteúdo — e se esquecem que conteúdo de qualidade, engajador, tem que ter estrutura editorial, não marqueteira.

Talvez as pessoas também tenham pulado o essencial texto da Gal Barradas dizendo que precisamos voltar a nos focar em vendas — e se esquecem que, para vender nos dias de hoje, as empresas precisam ter sua reputação ilibada.

Ou pode ser que as pessoas tenham frangado a ótima reflexão da Renata Longhi dizendo que a mídia conquistada, ou “earned media”, é essencial para qualquer empresa e só pode ser construída com base em elementos como autenticidade, legitimidade, credibilidade e demais elementos jornalísticos — todos temas presentes no dia a dia de quem trabalha com PR e conteúdo.

Prometo que essa é a única coisa que eu vou te pedir sobre o mercado de comunicação, de PR, das agências, dos clientes, dos influenciadores, das redes sociais etc. Você entendeu meu recado. O resto da minha lista é bem simples: vou pedir humildemente a produção inconteste e a implementação imediata da Lista Definitiva de Boas Maneiras para os Seres Humanos que Trabalham com Comunicação.

Coisa simples, juro. Só três itens, na regressiva:

3. Menos correria, mais reflexão

Esse pedido, Papai Noel, também poderia ser uma súplica pelo “fim da lógica da pastelaria para tudo na sua vida”. Pensa bem: chega o fim do ano e parece que todo mundo tomou chá de cogumelo. As pessoas ficam malucas. O trânsito, mais caótico que o habitual. A falta de educação contumaz torna-se insuportável. E o “nunca chega” do fim do ano atinge níveis enlouquecedores.

Em resumo, “os mano pira”.

A gente se acostumou a viver num mundo em que tudo é para anteontem na primeira hora, eu sei. Mas a grande realidade é que as coisas boas — os grandes projetos, as ótimas ideias, as entregas excelentes – não saem de uma hora para outra.

Um sócio meu diz que nove mulheres grávidas não dão à luz em um mês. Ele tem um ponto.

Eu sei que a gente vive numa correria louca, e que é, muitas vezes, necessária. Mas também sei que o Bolt não vai ganhar uma prova de 800 metros correndo daquele jeito dele. Tudo tem seu tempo e, às vezes, a gente simplesmente não respeita esse tempo.

Então, a gente tem que mudar, pode ser? Precisamos usar nosso bem mais precioso, que é o tempo, para estarmos mais presentes no… presente. Hoje, a gente faz uma reunião com a cabeça na próxima, enquanto responde e-mail pelo smartphone e planeja o jantar com a esposa pelo WhatsApp. Isso não é legal. Isso faz a gente criar uma ilusão de que somos multitarefa, mas, no fundo, nos tornamos ausentes de TODAS as coisas. E isso, Papi, definitivamente não é legal.

Então, o pedido é por menos correria e por mais reflexão. Até para dar sentido para a correria.

2. Mais interpretação de texto

Dear Santa, esse aqui é um pedido difícil, eu sei. Mas é s.i.m.p.l.e.s.m.e.n.t.e. i.r.r.i.t.a.n.t.e. constatar que as pessoas, em grande parte das vezes, não entendem o que você quer dizer. Seja falando, escrevendo, mandando sinal de fumaça ou por canais subaquáticos. Tanto faz a mídia: as mensagens não estão sendo decodificadas como deveriam. E a essência do que queremos comunicar tem se perdido.

Na faculdade, aprendi que a comunicação é uma via de mão dupla. Significa que, se acontece um mal-entendido, o problema é tanto do emissor quanto do receptor da mensagem. Mas eu tô achando, honestamente, que, em 2017, a “vitória”, esmagadora, foi dos receptores. Ou só eu acho que tem um monte de gente que não entende pontos de vista claríssimos, nível Interpretação de Textos for Dummies, versão Mobral?

O David Ogilvy diz que comunicação não é o que você fala, mas o que os outros entendem. OK. Mas neste ano a coisa extrapolou. Não sei se é ignorância. Ou má-fé. Ou se as pessoas acham que têm o direito de uso livre da opinião dos outros para defender seu próprio ponto de vista — do simples “provar uma tese/ganhar uma discussão” até o famigerado “manipular a opinião pública para obter o que se quer”. Talvez seja um pouco de tudo. Só sei que hoje é muito fácil falar o que se quer, ouvir o que não se quer e sair brigando por isso.

Também é fácil espalhar coisas a torto e a direito, de maneira indiscriminada, só para posar de “cool”. Nos meus primeiros anos como jornalista, tive um chefe que falava uma frase que nunca vou esquecer: não confunda sua ignorância com notícia. Parece que, nos dias de hoje, isso é regra.

Enfim… Mais uma coisa pra gente mudar. Tá nas suas mãos, Papai Noel.

1. Mais bom senso

Última coisa, Meu Bom Velhinho. Essa parece impossível de pedir, eu sei… Um amigo costumava dizer que bom senso é que nem braço, você nasce com ou sem. Meio polêmica essa colocação, mas ele tem um ponto.

O fato é que parece que muita gente anda perdendo o senso das coisas. Senso de realidade, de tempo, do ridículo… you name it.

A boa educação me impede de dar exemplos mais concretos nesse quesito, mas, honestamente, não é preciso, né? Todos os dias você se depara com alguém pedindo uma torneira de gim tônica no banheiro masculino, ou algo do mesmo naipe. Parece que o Sentido e a Noção, esse casal 20 que tanto fez sucesso no passado, não teve a temporada renovada em 2017. Eles simplesmente não compareceram em nenhuma roda de discussão.

A gente vive numa era em que as liberdades individuais nunca foram tão importantes. Em que as causas coletivas nunca tiveram tanta força, pois suas fragilidades nunca foram tão expostas. Em que as intolerâncias nunca pareceram tão graves, porque a sociedade nunca teve tantos megafones para se manifestar. Então, é natural ter um ruído grande. Mas, por isso que somos animais racionais, né, Papi? Justamente porque deveríamos saber filtrar as coisas que a gente ouve por aí. E usar nossos cérebros e corações para não perder la noción jamás. Foi assim que os nossos pais nos ensinaram, certo? Junto com aquele papo de não falar com estranhos, de não roubar etc. Que nem a Rainha Elizabeth II nos ensina a cada episódio da série que já virou a sua favorita, Papai Noel.

Enfim, sei que os pedidos são complexos. Mas são poucos e acho, honestamente, que dá para você atendê-los. É o que eu honestamente espero e desejo para todo mundo.

Feliz 2018!

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