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Só o consumo salva

O excesso de discurso se contrapõe à raridade das ações sinceras e concretas em favor do equilíbrio nas relações


17 de abril de 2019 - 13h59

(crédito: RazvanDP/iStock)

Há seis anos escrevi um artigo para o jornal Valor com o título “Sustentablablablabilidade” (mas que o editor mudou para outro, deve ter achado estranho — ou ruim — demais), onde eu tentava alertar para o excesso de discurso em contraposição à raridade das ações sinceras e concretas em favor do equilíbrio nas relações. Queria começar o artigo aqui no Meio & Mensagem com um parágrafo do outro artigo, se me permitem o autoplágio.

Ser sustentável é, em última análise, criar relações que permanecem no tempo porque são sadias e satisfatórias para todos os envolvidos. Que tipo de relações? Todas. Absolutamente todas. Marido com mulher, pais com filhos, pessoas com bichos, bichos com natureza, pessoas com natureza, empresas com funcionários (colaborador não dá para engolir), sócio com sócio, políticos com sociedade, célula com cromossomos, cérebro com célula, planeta com sistema solar, via láctea com universo, e assim por diante, infinitamente. Tudo que existe e que está conectado, tudo que se relaciona de alguma maneira com outra coisa. Quer dizer, 100% do que conhecemos e do que ainda vamos conhecer.

Dito isto, sejamos sinceros: estamos nos afastando com alguma velocidade desta ideia de harmonia entre tudo que existe. Não que fosse uma maravilha antes, pelo contrário, mas é inegável que a maneira como temos vivido, o sistema todo que estamos imersos, vai nos levar a um impasse, talvez incontornável caso não mudemos o curso das coisas.

“A grosso modo, estamos todos submetidos à lógica do resultado trimestral das empresas, sejam elas quais forem, mesmo as que não estão listadas na Bolsa ou até as individuais, já que a cadeia de produtos e serviços sempre está ligada, em última análise, a alguma grande empresa com ações na Bolsa”.

E quem investe em ações quer o maior retorno no menor tempo, lógico. Mesmo que signifique destruir valor nos médio e longo prazos: é só vender as ações desta empresa antes da queda e comprar outras mais interessantes no momento.

Este processo mental gera uma cadeia de transmissão com foco no agora e não considera o daqui a pouco e muito menos o futuro. Mas, além do agora, é no futuro que vão viver nossos filhos e netos. Será que temos o direito de desconsiderá-los? Pior, de condená-los? Você não se envergonha em saber que deixará um mundo pior para seus filhos? Eu sim. Não pude deixar de me emocionar com o movimento da greve das sextas-feiras iniciada por uma adolescente sueca e que repercutiu no mundo todo no dia 15 de março passado (e foi tristemente pífia aqui no Brasil). A ideia por trás disso é: eles (nós, adultos) estão pouco se lixando para o nosso futuro. Ou nós (eles, adolescentes) os forçamos a mudar a trajetória do mundo ou não teremos mundo para viver o futuro. Eles estão certos, lamentavelmente.

Alguns pesquisadores importantes acham que temos de parar a “máquina” para termos alguma chance. Outros decretam o fim do capitalismo como única chance, vale ler este artigo do Guardian. Humildemente discordo. Não acho factível nem possível simplesmente parar a máquina. Não vai acontecer, por mais necessário que seja. Não é apenas a consciência que muda atitudes. Talvez nem seja o principal motivo. Já o bolso, costuma operar milagres.

Acho sim possível e provável que por meio da mudança do critério de consumo das pessoas, as empresas realmente comprometidas com o futuro passem a ser as mais lucrativas, portanto, as mais atraentes para o tal do “mercado”. Podemos, como consumidores, dirigir nossas compras de serviços e produtos para empresas que tenham relações justas em todos (ou quase, nada é perfeito, somos humanos) os âmbitos. Temos o poder, como pessoas que dominam as técnicas de comunicação e marketing, de estimular mudanças de hábito e fazer brilhar empresas que preservem o ambiente tanto de trabalho quanto do seu entorno, que restaurem a natureza ao invés de destruí-la para fazer pasto para bois ou plantar soja para alimentar bois sabe-se lá onde, para ficar em um exemplo óbvio. Podemos transformar a tal da “máquina” pelas opções de consumo que fazemos diariamente, podemos estimular as empresas comprometidas com uma vida justa e equilibrada (e punir as relapsas ou indiferentes) consumindo seus produtos, fazendo suas vendas crescerem exponencialmente enquanto as que ignoram o futuro dos nossos filhos perdem vendas e lucros.

Isso fará o mercado financeiro apostar nessas empresas mais responsáveis e desinvestir nas que ignoram a destruição ambiental e social que causam. Para isso é necessário mais transparência, precisamos saber, como indivíduos, cada vez mais e melhor a origem e os processos de cada produto ou serviço que consumimos (chamam isso de rastreabilidade, outro conceito bom com nome quase tão ruim quanto sustentabilidade) para que possamos fazer as melhores escolhas.

E, como profissionais do consumo devemos mostrar a nossas empresas e clientes que o caminho dos lucros crescentes passa por entrar o quanto antes nessa onda de mais respeito à vida e a quem, em última análise, paga as contas e gera lucros de todas as empresas: todos nós. Essa atitude, aliada com razoável justiça social e distribuição de renda, me parece a maneira mais factível de tentar garantir que nossos filhos e netos herdem algo mais que lixo, insegurança e ódio.

*Crédito da foto no topo: Reprodução

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