O que a Netflix me ensinou

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O que a Netflix me ensinou

Mesmo sem exibir publicidade, o serviço oferece boas lições sobre o nosso ofício


3 de dezembro de 2019 - 17h35

(Crédito: Imdb)

Eu, como você e outras 150 milhões de pessoas ao redor do mundo, assisto à Netflix e gosto muito. Vamos combinar que até pega meio mal não gostar da Netflix. É horrível chegar a uma roda de amigos e não entender de qual série estão falando ou não poder recomendar um achado próprio.

Volta e meia o algoritmo me oferece algo que me faz refletir um pouco sobre propaganda. O que não deixa de ser irônico, uma vez que a Netflix não exibe publicidade.

Outro dia, assisti à Explained, uma produção da Vox Media. Os episódios duram cerca de 20 minutos e funcionam como minidocumentários que explicam, como sugere o título, alguns temas da atualidade. Do bitcoin à astrologia. Do orgasmo feminino à crise hídrica. E por aí vai. São didáticos, interessantes e muito divertidos.

Na temporada de 2019, decidiram focar em como funciona a mente humana. E tem um capítulo sobre a memória em que são discutidos os principais pontos que nos fazem armazenar melhor uma informação e esquecer de outras.

A chave está na emoção que determinada informação nos causou. Há uma explicação fisiológica para isso: quando temos uma experiência emotiva, a nossa amígdala — centro emocional do cérebro — estimula o hipocampo que fica bem próximo a ela. O hipocampo é o responsável por formar as nossas memórias e, quanto mais emoção, melhor ele trabalha.

Outro fator são as histórias. Nosso cérebro foca melhor em fatos que chegam até ele através de uma narrativa. A campeã mundial de torneios de memória, detentora de três recordes mundiais, explica, que para decorar uma sequência de 500 números, por exemplo, ela os divide em grupos de três e cria imagens surreais relacionadas a eles. Imagens que ajudam a construir uma história e, ao mesmo tempo, causar uma emoção.

É por isso que os consumidores lembram mais facilmente que um determinado carro é espaçoso se criamos para eles uma campanha sobre um cachorro-peixe, por exemplo. Ou, se queremos que o motor de determinada picape seja lembrado como mais potente que o de suas concorrentes, devemos escolher falar sobre pôneis malditos. Seres humanos guardam melhor as informações que chegam até eles através de histórias viscerais e emocionantes.

A outra dica é a segunda temporada de Abstract — The Art Of Design. Mais precisamente o episódio sobre a Neri Oxman, bio arquiteta e chefe de laboratório do MIT. Ela explica que o conhecimento humano é dividido em quatro campos: a arte para a expressão, a ciência para a exploração, a engenharia para as invenções e o design para a comunicação.

Até hoje, essas áreas são tidas como isoladas, mas, segundo Oxman, elas deveriam ser vistas como um grande círculo interdependente. A ciência transformando informação em conhecimento, a engenharia transformando conhecimento em utilidade, o design transformando utilidade em comportamento e, finalmente, a arte transformando comportamento em percepção. Nós, do campo da comunicação, estamos bem ali entre a engenharia e as artes, moldando comportamentos não só a partir das invenções, mas também em um movimento reverso do ciclo, pelas percepções.

Nesses tempos em que tanto discutimos dados e criatividade, como se fossem dois cavalos que acabaram de largar da banca, foi muito esclarecedor observar a ambiguidade e complexidade da minha profissão serem tão bem sintetizadas em duas séries diferentes.

Então, coloque aí no seu wishlist a Abstract e a Explained e veja se concorda comigo. Mas, se você achou tudo o que escrevi até aqui uma bobagem, assista a 2ª temporada de The Crown que não tem erro.

**Crédito da imagem no topo: Thibault Penin/Unsplash

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