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Cabe às empresas e lideranças assumirem suas responsabilidades e desenvolverem estratégias próprias, a fim de conferir um mínimo de estabilidade para suas equipes


22 de junho de 2020 - 10h51

(Crédito: Ani Ka/ iStock)

Junho marcou a entrada em uma nova fase da quarentena, em vigor na maioria dos estados por aproximadamente três meses. O governo de São Paulo começou a reabertura gradual de comércios e escritórios. O prefeito da capital, Bruno Covas, foi cauteloso ao estabelecer o ritmo da retomada. Não agradou a gregos nem troianos: frustrou tanto aqueles a cultivar a ideia de que o fim das restrições marque o início da volta da atividade econômica em escala suficiente para, ao menos, fazer a roda financeira recomeçar a girar, quanto os contrários ao afrouxamento das normas emergenciais de convívio, para quem a simples menção à reabertura é tratada como um desrespeito à vida.

Pode-se e deve-se discordar, pelo bem do debate, mas as motivações de ambos os lados são compreensíveis. Emocionalmente, o confinamento tem se tornado um sacrifício árduo, como seres sociais, e angustiante, do ponto de vista financeiro, quando começam a ser divulgados os indicadores relativos a abril e maio do impacto real da pandemia na economia e níveis de emprego. Racionalmente, porém, não há nada que indique ser essa a hora certa para relaxar o distanciamento que tem salvado vidas e mantido o sistema de saúde operando na principal metrópole da América Latina — na semana passada, São Paulo registrou recorde diário de mortes por Covid-19.

Na ausência de um direcionamento único por parte dos poderes públicos, cabe às empresas e lideranças corporativas assumirem suas responsabilidades e desenvolverem estratégias próprias, a fim de conferir um mínimo de estabilidade para suas equipes e colaboradores — tudo o que o seu time e colegas de trabalho menos precisam, neste momento, é de mais orientações erráticas.

Em meio a essa crise, que também é de confiança, tanto nas instituições quanto entre as próprias pessoas, demonstrações práticas de empatia e solicitude têm o poder de criar vínculos sólidos e transmitir a segurança necessária para que as equipes se concentrem no trabalho a ser feito agora. É preciso unificar o mindset para a realidade que se impõe aos desejos pessoais e seguir em frente, com o que temos para hoje, sem ficar à espera de que o vírus e seus efeitos sobre a nossa vida simplesmente desapareçam, do dia para a noite, como num passe de mágica.

Em entrevista recente ao programa Conectando o Mercado, transmitido diariamente às 15h pelo site de Meio & Mensagem e nosso canal no YouTube, a vice-presidente de marketing da PepsiCo, Daniela Cachich, ressaltou a importância de priorizar o progresso à perfeição nesse cenário de volatilidade e incertezas, onde a inércia e a negação são os piores inimigos.

“Esta semana tenho que tomar decisões com as informações que tenho na mão. Não dá para esperar por algo mais refinado em duas semanas. Até porque, daqui a duas semanas, mudou tudo de novo”, afirmou, antes de citar benefícios da adoção de métodos ágeis. “Os times ficam mais resilientes, mais rápidos na tomada de decisão. Se as lideranças querem algo mais concreto, tudo fica paralisado.”

Se não há como argumentar contra o fato de que essa crise é diferente das demais, pela magnitude e pela rapidez com que alastrou seus efeitos, tampouco é a primeira — e a maioria das lições de crises anteriores segue válida. Haverá menos dinheiro, no geral, para desembolsos e investimentos, mas os hábitos de consumo seguirão em transformação. Sua marca precisa entender as condições de seu público para continuar sendo lembrada por ele. Desaparecer não é uma opção.

Países bem-sucedidos no manejar da crise, na Ásia e na Europa, já estão colhendo na reabertura resultados mais animadores do que o projetado. Os mercados de capitais de economias robustas, como a americana, já praticamente retomaram os níveis pré-Covid-19. A própria Bolsa brasileira encontra-se em patamar acima do esperado, precificando em seus papéis uma retomada positiva — uma jornada que precisará ser percorrida na prática, pois, para transformar essa fotografia do momento em fato consumado, precisamos seguir os bons exemplos e, primeiro, terminar nossa lição de casa.

*Crédito da foto no topo: iStock

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