Uma lente de aumento chamada pandemia

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Uma lente de aumento chamada pandemia

Nós nos adaptamos muito rápido, e o que parecia ontem uma realidade absurda, hoje já é comum; a crise vai passar, mas os problemas que já existiam vão continuar, e ainda agravados


30 de junho de 2020 - 13h09

(Crédito: nito100/iStock)

O novo coronavírus tem uma característica na qual a humanidade deveria se espelhar. Ao contrário do ser humano, não discrimina raça, cor, idade nem gênero. Ele pode se comportar de maneiras diferentes de um organismo para outro, mas, quando falamos de contaminação, quando exposto ao vírus, não importa se você é amarelo, preto, gay ou hétero, as chances de contrair a doença são as mesmas para todo mundo.

Mas, infelizmente, a sociedade e seus mecanismos conseguem distinguir o impacto das consequências dessa pandemia de acordo com o padrão econômico, cor da pele, gênero ou orientação sexual. No Brasil, um país de extrema desigualdade social e, atualmente, com bipolaridade política, esse cenário se acentua ainda mais.

De um lado, uma grande parte da população que já não tem, por histórico, acesso a condições básicas sanitárias e de moradia decentes fica mais exposta ao vírus. Do outro, há um desencontro de iniciativas das lideranças governamentais.

O resultado é o alto índice de mortalidade entre os mais pobres e uma lupa nas feridas que a sociedade já possui, que sempre estiveram ali, mas que agora ficam ainda mais expostas.

A mesma coisa acontece quando analisamos o impacto da pandemia na comunidade LGBTQIA+.

A pandemia é uma lente de aumento em todos os problemas sociais que existem, agravados pela fragilidade da saúde.

Em uma recente pesquisa no Brasil, realizada pelo #VoteLGBT, com a ajuda de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Unicamp, foram avaliadas as consequências da Covid-19 na comunidade LGBTQIA+ e, pelos números levantados, realmente chegou-se à conclusão de que, o que já era ruim em condições normais, ficou ainda pior.

Quando comparamos a taxa de desemprego, por exemplo, esse público no cenário antecedente à pandemia já enfrentava preconceito e dificuldades. Enquanto a média de desemprego era de 12% no Brasil, segundo a pesquisa PNAD Contínua, divulgada pelo IBGE em abril, no público LGBTQIA+ essa taxa aumentava para quase 16%. Agora, durante a pandemia, saltou para 21,6%. Essa é apenas uma das preocupações. O índice de depressão também sempre foi altíssimo nesse público e, durante a pandemia, é outro fator de monitoramento necessário. Na mesma pesquisa, 28% dos entrevistados manifestaram diagnóstico prévio de depressão. Ou seja, a tendência a cair novamente no quadro é maior devido ao isolamento. E, com a dificuldade financeira batendo na porta, aumentam também as barreiras de acompanhamento médico e terapêutico, fazendo a batalha ainda mais dura.

Há quem acredite que tudo isso esteja acontecendo para que a humanidade saia dessa crise melhor, com outra perspectiva perante seu semelhante. Se não melhor, pelo menos diferente. Por outro lado, já podemos ver, com a reabertura dos mercados em alguns países e aqui no Brasil, que o novo normal não será tão novo assim. Nós, humanos, assim como os vírus, nos adaptamos muito rápido, e o que parecia ontem uma realidade absurda, hoje já é comum. A crise vai passar, mas os problemas que já existiam, vão continuar, ainda mais agravados.

Vale nos questionarmos o quanto o retrocesso econômico afetará diretamente o espaço conquistado até aqui pelas minorias. Quantos passos daremos para trás depois de quantos anos tentando andar para a frente? E se antes o olhar deveria ser cuidadoso para a continuidade da abertura dos caminhos, também é muito importante zelar pela garantia do que foi conquistado até agora.

E, por enquanto, se não encontramos uma vacina para a cura da desigualdade social e da discriminação, vamos, então, torcer para que, pelo menos, a vacina para o coronavírus venha o quanto antes.

*Crédito da foto no topo: iStock

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