O silêncio enquanto diapasão

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O silêncio enquanto diapasão

Vivemos em um mundo com muitas falas, diversos barulhos, infinitos espelhos e poucos ouvintes. Com tanto som ao redor, às vezes, nos esquecemos do nosso canto, de como soamos


25 de novembro de 2020 - 14h34

(Ilustração: Marcos Medeiros, sócio e chief creative officer da CP+B Brasil)

Uma dessas infinitas chamadas de vídeo. Naquele instante de silêncio, enquanto se espera por alguém na reunião, surge um canto de passarinho ritmado, alto, orgulhoso. Alguns rostos demonstram que o canto foi notado. Um sorriso surge aqui e ali.

Alguém pergunta: “Esse passarinho cantando está em qual casa?”

Eu respondo: “É aqui perto. Todo dia, a essa hora, eles cantam.”

“Mas tá alto, né? Ou será que a cidade é que está vazia?”

A gente arriscou algumas respostas embasadas no Manual do Escoteiro Mirim, no programa do Discovery visto em uma madrugada insone e na sabedoria de um sogro, que pareceu ser a melhor das alternativas.

A reunião começou. E o pássaro seguiu no seu ritmo como quem marca os passos dos moradores, o mover das folhas das árvores, o balançar da cortina ao vento. Guardei esse som.

“A vida é tão rica de sugestões, há tanta poesia perdida até no meio da rua que basta a gente manter os olhos abertos, e a máquina pronta, para selecionar as imagens que tenham significação, e assim interpretar a vida. Eis a fórmula.” Uma fala do fotojornalista Luciano Carneiro, falecido em 1959, que odiava flash, mas viajava o mundo em busca de registrar emoções humanas.

Guardei essa frase e o som do pássaro; deixei-os à espera de um lugar de encontro. Nunca sei ao certo quando isso vai acontecer. Em geral, não acontece. Tenho um arquivo de frases perdidas que nunca encontraram seus novos pares. Às vezes, eu as visito como um cupido reverso, que afasta a cada flechada. Em outras, o acaso dá conta de fazer o elo.

Foi quando um novo pássaro cruzou o caminho a cantar e relembrar um artigo da Suzana Herculano-Houzel, para a Folha de São Paulo.

Não fosse a pandemia, talvez não parasse para ler um título que dizia: “Os pássaros estão ouvindo e agradecem o silêncio”. Porém, tenho andado em busca de coisas boas para ler, um lugar de calma. E este parágrafo entregou tudo isso de uma só vez: “Durante o lockdown, os pássaros urbanos passaram a cantar mais suavemente, em tons mais graves, com muito mais variação de voz. Sem o zum-zum da cidade para abafá-lo, e graças aos tons mais graves, seu canto não só ia mais longe, como também voltou a ser mais complexo, mais cheio de conteúdo. Durante a pandemia, os pássaros urbanos voltaram a cantar como seus primos rurais.”

Não sou um observador de pássaros. O daltonismo me impede de perceber detalhes importantes nas cores. Mas o som que pareceu mais alto na chamada de vídeo ganhou novos contornos com a leitura. Um grande amigo e irmão, que mora hoje em Camburi, já havia me alertado sobre a importância de perceber esses pequenos animais ao redor. Foi curioso perceber do quanto de cidade ele foi se livrando a cada mensagem na pandemia. Numa hora, o cansaço urbano parecia se esvair. Na seguinte, a explanação sobre um aplicativo que identifica as espécies. Logo depois, registros de frutas cortadas, dispostas em um recipiente na varanda. Até estar cercado de passarinhos. E ouvir além do canto ao redor, ouvir a si mesmo.

Vivemos em um mundo com muitas falas, diversos barulhos, infinitos espelhos e poucos ouvintes. Com tanto som ao redor, às vezes, nos esquecemos do nosso canto, de como soamos. Em alguns momentos, parece que estamos emulando uns aos outros. Nas redes sociais, muitas vezes é difícil distinguir quem está falando quando esquecemos a foto do perfil e focamos as palavras. Porque elas se repetem. Repetem-se os discursos, o jeito de escrever, perde-se autenticidade. Pessoas que escreviam de um jeito vão, aos poucos, se moldando a um modelo de maior engajamento. Nesse modelo, não cabem dúvidas. É fundamental ser assertivo e categórico. Como disse o amigo Rodrigo Resende, a vergonha de exibir virtudes não existe mais. Sem que notemos, o nosso cantar fica dissonante. Ou passa a soar como um cover de outro alguém.

Elizabeth Derryberry foi quem conduziu os estudos sobre o pardal-de-coroa-branca nos arredores de São Francisco. O pássaro foi escolhido por conviver próximo dos humanos, por ser um sobrevivente urbano, como ela mesma define. Além disso, há 30 anos, o canto desses animais tem sido gravado, o que traz um efeito comparativo poderoso. O lockdown não estava programado no estudo, nem nas profecias, mas, ao chegar, ele trouxe o que a Suzana Herculano-Houzel muito bem pontuou como a sua parte favorita: “Os pássaros finalmente puderam voltar a se ouvir — e ajustaram suas vozes”.

Talvez seja uma das coisas que mais nos faz falta: voltar a se ouvir. Na ânsia de preencher tantos lugares, vamos perdendo essa capacidade. Para cada rede, uma voz. Para cada postagem, uma expectativa. Para tudo, desafino. O Whindersson Nunes teclou numa madrugada: “Eu amei conquistar, ganhar, vencer, crescer, nada disso foi difícil pra mim, eu amei. Mas, hoje, a minha cabeça está perturbada demais, acho que essa é a parte mais difícil.” Mesmo ele, que voa tão alto, que voa para onde quiser, sente essa distância do canto.

Na foto que ilustrava a matéria sobre o fotojornalista Luciano Carneiro, ele estava em um avião. No som que ouvi da janela, um pássaro estava prestes a voar. O voo habita em nós como um desejo ancestral, como um Ícaro a desafiar a proximidade do sol, como quem acorda sobressaltado ao se ver caindo enquanto sonha. Um avatar é uma forma de sair de si mesmo e viver um personagem. Nesse sentido, voamos. Mas há sempre a possibilidade de nos esquecermos da importância de pousar. De ouvir a própria voz nesse barulho todo, nesse mundaréu de informações que nunca vai cessar. Seria desejável cantar como os primos rurais, ajustar a voz, não sentir a imensa dor de um desafino. Deve ser bom agradecer o silêncio tal qual um pardal-de-coroa-branca.

*Crédito da foto no topo: Eugenesergeev/iStock

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