Entre o banal e o inesperado

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Entre o banal e o inesperado

Em 2020, comecei escrevendo sobre um 2019 que me havia sido terrível e o quanto eu desejava a calma revolucionária sugerida pelo poeta Emicida


28 de janeiro de 2021 - 12h49

(Crédito: Marcos Medeiros)

Um post recente, em uma rede qualquer, mostrava um cartaz grudado num muro. E a frase era esta: “Se der vontade, suma um pouco. Não para que os outros sintam a sua falta. Mas para que você relembre quem você é”.

Um texto de 2012, do Jonathan Franzen, trazia, entre tantas verdades belas e duras, este pensamento: “Se uma pessoa, no entanto, dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é.”

Eu tenho rodeado por esses dois fragmentos em busca das palavras certas para entrar neste novo ano que se anuncia. Em 2020, comecei escrevendo sobre um 2019 que me havia sido terrível e o quanto eu desejava a calma revolucionária sugerida pelo poeta Emicida. Calma e 2020 na mesma sequência. Que escolha, não? Relendo, agora, penso que ou foi um brutal erro de cálculo ou um lembrete futuro de que não há como prever as palavras certas. O disco AmarElo foi o meu ritual simbólico de entrada em 2020, meu guia. Para 2021, um ano incerto como um plano geral de vacinação, penso em duas imagens e seus simbolismos que me trouxeram conforto, um com a beleza banal, outro com a grandeza.

Começo pela banal sanduicheira de metal, redescoberta em toda a sua simplicidade. Talvez você se lembre daquele design peculiar: duas hastes finas de metal que vão ao encontro de um quadrado —também metálico — repleto de pequenas bolinhas na superfície. Na ponta das hastes de metal, um acabamento de madeira para que a gente coloque as mãos e não se queime. Há também um ganchinho que prende as hastes, mas atrapalha mais do que ajuda. Joguei fora. Essa sanduicheira, esse pequeno utensílio doméstico, habita o lugar mais protegido da memória afetiva. Guardava dele sabores de infância, uma certa dose a mais de manteiga, o queijo derretido que teimava em fugir  do receptáculo, o contato próximo ao fogo, o cheiro que tem o mesmo poder hipnótico de chuva em dia quente.

Por estar tão resguardado na memória, relutava em comprar esse objeto novamente. Mas ainda assim o fiz e, ao contrário do guarda-chuva de chocolate, não houve decepção nesse reencontro. A tal sanduicheira de metal ainda forja os melhores sabores, com uma simplicidade que faz falta nos dias de hoje. Apenas um misto-quente feito da maneira mais ordinária e não menos gostoso por isso.

O segundo elemento é a imagem que mais vi nos últimos tempos: Marina Abramović no MoMA. Desconhecia por completo o trabalho da artista e fiz dessa descoberta tardia um lugar quente para estar. Foram incontáveis os momentos em que me peguei abrindo um vídeo da performance The artist is present. Tudo ali é bonito, não há nada
que se possa alterar, e a ausência absoluta de diálogo torna a cena ainda mais emblemática. Há apenas a artista em uma cadeira, à espera de uma pessoa que queira se sentar de frente para ela; entre uma e outra, apenas uma mesa. Repito: tudo ali é bonito, tocante e possível. Durante três meses, Marina dedicou mais de 700 horas a esse trabalho que exige um esforço com o qual não estamos mais acostumados a lidar: o silêncio. Não há esconderijos ou subterfúgios, tudo o que se tem naquele momento são duas pessoas e as diferentes emoções que acontecem a cada novo breve encontro. No ato singelo de olhar verdadeiramente para o outro.

A cena mais famosa dessa performance circula pela internet, e você não precisa conhecer nada da história entre a artista e aquele homem de barba e cabelo grisalhos. Tudo fica evidente através do olhar entre eles, de pequenos e poderosos gestos. Há, entre os dois, um mundo inteiro de relatos que nos são contados sem uma palavra sequer. Ulay é o nome do homem de cabelos grisalhos. Marina e ele viveram um relacionamento amoroso e foram parceiros de performance por anos. Quando você pesquisa sobre os dois, surgem as imagens que aqueles olhos marejados tanto diziam. Na performance Rest Energy, uma flecha é apontada por Ulay na direção do coração de Marina, que segura o arco. O que impede o disparo é o equilíbrio entre os dois corpos. A imagem é deslumbrante.

Outro momento? Para marcar o fim da relação, eles saíram de pontos opostos da Grande Muralha da China e andaram até um passar pelo o outro; então, dali em diante, seguiram seus caminhos individuais. Não me recordo de um término mais bonito. A cena do MoMA é sobre reencontro entre os dois. Todo aquele silêncio é um lugar de entrega, sabedoria e beleza profunda que não me canso de visitar.

Na falta de palavras, ou tateando para encontrar mais sentido, resolvi arriscar a praticar um pequeno exercício de ficar mais quieto. De um breve sumiço, quiçá. Há um mês estou longe de São Paulo e tento aprender esse outro ritmo. Não há planos de ser eremita ou coisa do gênero, mas há de se buscar um equilíbrio nessa ansiedade de ter que ver, postar, curtir, ser curtível e, talvez por isso, não estar presente para saborear o trivial e encarar o não esperado. Como o misto-quente na sanduicheira de metal ou como o desafio de deixar uma cadeira vazia de frente para você (ou um sofá no que depender da coragem) e estar aberto ao que vier em 2021.

P.S.: “Ninguém entende que o mais difícil é fazer algo que é quase nada. Isso exige 100% de você, não há mais história para contar, não há objetos dos quais se esconder, não há nada. É só a sua presença, você só tem a sua energia e nada mais.” Marina Abramović

*Crédito da foto no topo: JBKdviweXI/ Unsplash 

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