Pra que tanta purpurina?

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Pra que tanta purpurina?

Existe um vasto público para isso, que consome platitudes como se fossem genialidades, enquanto isso muitos contratos não passam de um ano porque a expectativa do cliente não se concretizou


9 de julho de 2021 - 8h00

Toda área de atuação profissional possui seus encantos, mas, também, suas chatices. Vejam o terreno da gestão: criou-se uma veneração por empreendedores. Apenas porque seus negócios prosperaram — o que, claro, tem mérito —, eles se consagraram como gurus da vida em sua plenitude. Com base unicamente no sucesso de sua carreira, dão pitacos sobre política e como ser feliz. Obviamente, existe um vasto público para isso, que consome platitudes como se fossem genialidades. Exagero? Com olhar crítico, assista a palestras ou siga as redes sociais de alguns bilionários e confira por si mesmo. A sensação é semelhante a comer um pastel de vento. E o que falar do papinho startupeiro repleto de churns, elevator pitches, budgets e targets, usando a língua de F. Scott Fitzgerald sem a menor necessidade?

O segmento da comunicação — onde atuo há 15 anos — não é tão diferente dos exemplos acima. Infelizmente. Faço a ressalva: conheci, ao longo desse tempo, companhias e profissionais exemplares. Porém, existe solo mais fértil para a afetação, a puerilidade, o descolamento (milimetricamente calculado) e a superficialidade? Nunca esqueço da provocação de um amigo médico: “Jornalista é aquele que sabe quase nada sobre quase tudo”. Tentando não ser corporativista, algo que tanto prejudica a inteligência, ri e concordei.

O mesmo vale para agências de publicidade e digitais com suas pequenas celebridades. “Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade!”, resumiu um pregador séculos atrás, com uma constatação que hoje se aplicaria à risca nesse universo. Muitas vezes, apresentações maravilhosas se transformam em operações sofríveis, onde sequer o arroz com feijão de um cardzinho de Instagram é bem feito. Metodologias lançadas com pompa ao mercado são nada mais do que uma casca — cujo interior, revelado no dia a dia do atendimento, é o caos. Trocando em miúdos: prometem uma Nikon de última geração, mas acabam entregando uma Tekpix. Quem dera tivéssemos parado no tempo retratado em Mad Men. Mesmo com todos os vícios que já existiam naquela época, ao menos as pessoas ensaiavam uma certa seriedade, inclusive na forma de se vestir. Ora, pra quê tanta purpurina?

A comunicação, acima das vaidades, deve ser tratada como a protagonista da nossa sociedade atual (Créditos: Miguél Á. Padriñán/Pexels)

Esse tipo de postura gera uma série de efeitos no plano dos negócios. Quantos contratos não passam de um ano justamente porque a expectativa do cliente não se concretizou? Quanto retrabalho é gerado porque o tal criativo se fixa às suas ideias e não consegue compreender o perfil de quem atende? Por que a vida dessas companhias costuma ser mais curta do que em outros nichos da economia? Quantas danças da cadeira acontecem no mercado, com grandes marcas trocando suas agências porque não há uma estabilidade na qualidade das entregas? Por que é tão difícil indicar profissionais e fornecedores dessa área? São perguntas que revelam uma cadeia produtiva fragilizada.

Diante de tudo isso, uma autocrítica se faz necessária para que organizações, empreendedores e colaboradores evoluam. E, nesse aspecto, é preciso exercitar uma virtude que não está tão presente no nosso segmento: a humildade. Pode até parecer contraditório, mas os profissionais de comunicação deveriam falar menos — e ouvir mais. Existe uma clássica meditação cristã que nos convida a refletir sobre a finitude e a nossa importância individual diante da imensidão do universo. Em suma: viemos do pó, e ao pó voltaremos; e não somos imprescindíveis ou melhores do que ninguém. É a partir dessa compreensão que temos de avançar. A cultura de comunicação somente irá se fortalecer quando acontecer um reencontro com a simplicidade. Com a objetividade, com a essência, com a verdade. O resto todo é espuma.

 

 

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