Viagem ao redor do meu quarto

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Viagem ao redor do meu quarto

Condenado a um período de reclusão, Xavier de Maistre não fez disso fonte de tristeza aguda, mas de reflexão que resultou em uma obra inspiradora


17 de agosto de 2021 - 13h58

(Crédito: Bestdesigns/ iStock)

Há muito pouco tempo, chegou a mim, pelas mãos da Cecília Russo Troiano, um texto do Carl Gustav Jung do qual eu extraí este trecho:

A coisa mais importante é o aqui e o agora. Este é o momento eterno, e se não o percebeis, perdeste a melhor parte da Vida, perdeste a percepção de que és o portador de uma Vida contida entre os pólos de um futuro inimaginável e de um inimaginável e remoto passado…. Olhar a vida como se ela fosse mera preparação para coisas futuras é como se não fosse capaz de saborear sua refeição enquanto está quente. ”

Como nada acontece simplesmente por acontecer e ponto, eu acabei usando a frase como uma lente para o que temos vivido, neste longo e doloroso período de pandemia. Em que alimentamos movimentos nostálgicos do tipo como foi boa aquela viagem misturados com sonhos do dia em que vamos pisar na Cracóvia, em San Petersburgo ou na Sicília. E aquele linguine à carbonara, já não me lembro bem onde foi!

E eis que passeando entre o que já foi e o que um dia será, descobri, lendo uma resenha em algum lugar de que eu não me lembro agora, o livro que é o título deste artigo: Viagem ao redor do meu quarto (Editora 34).

Escrito em 1795, há 226 anos, portanto. Seu autor é o personagem que narra as setenta páginas, em primeira pessoa, Xavier de Maistre.

Era um nobre da corte de Saboia na Sardenha e, por ter se metido em algum imbróglio palaciano, foi condenado a um período de 42 de reclusão num pequeno aposento na Via Pó, em Turim.

O que poderia ter sido um triste degredo, com reminiscências e expectativas do futuro,  ou vivido como um simples encarceramento, não foi! Lógico que Xavier conviveu com o que seria um minúsculo espaço, na visão de um aristocrata, entre a cama, mesinha, quadros na parede e pouca coisa mais. Poderia ter sido a fonte de uma aguda tristeza ou de um quadro depressivo, desses em que se recomenda Prozac ou Zoloft atualmente. Mas também não foi!

Não estou me esquecendo de Graciliano Ramos, Antonio Gramsci, Miguel de Cervantes e mais outros tantos que produziram obras fundamentais no cárcere e, talvez, mais poderosas.

Mas, neste momento da minha vida, me apaixonei pelo livro do Xavier de Maistre. Comprei cópias para alguns parentes e amigos, li umas três vezes e o elegi como o meu totem literário da pandemia. O que Xavier de Maistre fez ajudou-me a atravessar este período, ainda sem sair do “túnel” da pandemia, me ensinando como eu poderia fazer viagens ao redor do meu quarto, da minha sala e do meu escritório, dentro de casa. Com um pouco de prepotência, até pensei: se ele conseguiu produzir o que produziu trancafiado, sozinho, sem as mordomias da corte, eu não poderia deixar por menos.

Ele foi um sarrafo que fui me treinando para saltar. Nem de longe, consegui a mesma marca. Mas como diz a Marina, minha professora de Yoga, concentrei-me na intenção do movimento, mesmo sem o alcance pleno do Xavier, e sem sua performance “olímpica”.

Nessas condições em que viveu o isolamento, ele conseguiu se afastar de mal-estares mais profundos, preservar sua sanidade mental e produzir uma peça de rara introspecção e beleza. Quantos de nós, na era do Covid-19, têm conseguido sobreviver equilibradamente e tirar desta experiência bons frutos? Além, simplesmente, de ganharmos o prêmio de estarmos vivos, saudáveis e produtivos.

O que Xavier fez durante os 42 dias foi compreender que ele era constituído por duas condições humanas complementares, ou dois estados vitais: o animal (o próprio corpo) e o espírito.

O animal estava preso naquele quarto, o espírito, porém, mais liberto do que nunca para voar, flutuar, transcender.

No dia de sua alforria, pondo os pés fora do quarto e caminhando, ou melhor, perambulando pela Via Pó, ele reflete sobre o quanto ele estaria ganhando  com o retorno da liberdade do corpo, de seus movimentos, do animal, enfim. Por outro lado, o quanto estaria perdendo com a submissão do espírito às relações impositivas do mundo social ao seu redor.

Eis, hoje, pois, o dia em que estou livre; ou melhor, o dia em que novamente seria posto a ferros! O jugo das relações humanas há de pesar novamente sobre mim; não darei nem mais um passo que não seja medido pelo decoro e pelo dever. Ai, não me deixaram concluir minha viagem!” A liberdade do espírito conquistada em seu quarto estava sendo posta a ferros na volta de seus passos pelo mundo.

Na minha santa ignorância, nunca soube da existência do livro, mas numa pesquisa rápida, descobri repercussões da obra, por exemplo, nas leituras de Nietzsche e no Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis).

Em mim, o livro tem tido um papel muito poderoso e inspirador, nesta difícil jornada. Ele me lembra sempre como precisamos ser generosos com Kairós:  na mitologia grega, o deus que rege o tempo como o momento oportuno, o momento certo. Momentos que estamos vivendo, como nunca antes, com a casa, a família, amigos. Que não são apenas um estágio de transição do que era para o que será. Mas são, sobretudo, oportunidades únicas de reverenciar a presença de Kairós. E de pensar muito!  Ao contrário da outra noção mitológica grega de tempo, Chronos, que vai passando, vai nos engolindo, como engoliu os próprios filhos, com seu furor e sua linearidade.

Bem, tudo isso me fez sentir o seguinte: não sei se nosso grande Lupicínio Rodrigues leu ou não esse livro. Pra mim, é como se tivesse lido. Basta lembrar dos versos da sua canção Felicidade (1937), para ter certeza disso:

“O pensamento parece uma coisa à toa
Mas como a gente voa quando começa a pensar”

De alguma forma, Xavier de Maistre vivia “cantando” Lupicínio Rodrigues durante 42 dias!

*Crédito da foto no topo: Eugenesergeev/iStock

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