A Olimpíada da ambivalência

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A Olimpíada da ambivalência

Quando o mundo precisa encontrar lutas e sonhos comuns e um futuro mais harmônico, Tóquio 2020 se apresentou como grande fonte de inspiração


24 de agosto de 2021 - 14h15

(Crédito: Lintao Zhang/ GettyImages)

Em artigo recente, Sam Borden, jornalista da ESPN pergunta: do que se tratam as Olimpíadas? Destreza atlética? Ser capaz de alcançar uma performance radical? Jogar contra os melhores? Ultrapassar todos os limites?

Tóquio 2020 foi sobre tudo isso e sobre um outro lado de cada uma dessas coisas. Provou que Olimpíadas se tratam também de dividir a vitória, errar, torcer e apoiar o outro, reconhecer fraquezas, aceitar limites, neutralizar impactos negativos e gerar positivos à sociedade e ao planeta; aprendizados que merecem ser colocados em prática além do esporte.

Planejados para 2020, os Jogos tiveram lugar em momento complexo, sob a sombra de uma pandemia, após mais de um ano de isolamento e medo da morte. A Olimpíada começou com 80% dos atletas vacinados, sem espectadores, com uso obrigatório de máscaras, evitando aglomerações quando deveria ser marcada pelo estar junto e pela comemoração. Ainda assim, novas infecções por Covid-19 foram registradas. Em meio a discussões globais sobre desigualdade, fome, desemprego, os Jogos custaram bilhões de dólares ao Japão, somados aos bilhões em divulgação, patrocínio, merchandising.

Com a promessa de unir o mundo e respeitar sua multiplicidade, as semanas que antecederam os Jogos foram marcadas por demissões de gestores envolvendo misoginia e assédio. Yoshiro Mori, 83, presidente do Comitê Organizador das Olimpíadas de Tóquio, renunciou após reações a seus comentários sexistas em reunião do conselho do Comitê Olímpico. Às vésperas dos Jogos, o diretor da cerimônia de abertura, Kentaro Kobayashi, foi demitido por falas anteriores à Olimpíada sobre o Holocausto. A música de abertura quase foi cancelada após seu compositor, Keigo Oyamada, ter sido forçado a se demitir por ter se gabado do hábito de intimidar colegas deficientes no passado.

Apesar de tudo isso, a Olimpíada de Tóquio foi palco de acontecimentos símbolo de um mundo onde novos imaginários estão em construção. Mapeamos os cinco principais territórios quando pensamos na desconstrução e construção de narrativas.

1. Humanidades e Fronteiras: A equipe de 29 refugiados presente em Tóquio representa 82,4 milhões de pessoas (42% delas crianças), mais de 1% da população mundial, uma em cada 95 pessoas, segundo a ACNUR. Um número que não para de crescer. As Olimpíadas viram pela primeira vez uma equipe que não marchava sob a bandeira de nenhum país na Rio 2016.

2. Mudanças Climáticas e Sustentabilidade: O calor e a umidade extremos do Japão alteraram a programação de pistas de corrida e ciclismo e nas quadras de tênis e futebol. Organizadores consideram que a mudança climática forçará órgãos esportivos a repensar seu calendário de eventos. O compromisso de Tóquio com a sustentabilidade foi importante, mas estudos mostram que não existirá um resultado realmente positivo até que escala e impacto social, ambiental e econômico de toda a cadeia sejam incorporados à análise.

3. A Conquista e o Desafio Feminino: Esta foi a Olimpíada com maior igualdade entre homens e mulheres (49%) de todos os tempos, mas mostrou que equidade vai além, com discussões sobre uniformes, falta de condições adequadas e de apoio a atletas mães em amamentação, e protestos contra a presença de atletas acusados de assédio sexual.

4. A presença histórica de atletas LGBTQI+: Houve recorde de 182 atletas declarados LGBTQI+, de 25 países, e quebra de paradigmas pela presença de quatro transexuais, apontando a necessidade de mudanças urgentes. Entre as objeções ou dificuldades à participação trans nos esportes, prevalece a crença de que mulheres trans teriam vantagem injusta sobre suas competidoras, mesmo após tomar hormônios e reduzir a testosterona — a ciência ainda não tem uma resposta conclusiva.

5. Sucesso resignificado: Vulnerabilidade e limite. Valorização da jornada e resultado com propósito. Empatia e acolhimento antes de rivalidade. Tóquio trouxe grandes lições quanto ao significado de sucesso e desempenho, chamando atenção para uma questão apontada no Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial, em 2019: a saúde mental, problema que afeta hoje principalmente jovens entre 12 e 17 anos.

No momento em que o mundo precisa, mais que nunca, encontrar lutas e sonhos comuns e imaginar, todos juntos, um futuro mais harmônico, as Olimpíadas de Tóquio 2020 se apresentam como uma grande fonte de inspiração, tanto sobre os desafios que ainda precisam ser enfrentados quanto sobre o quanto estamos em evolução.

O que podemos fazer com isso? Iniciar diálogos capazes de promover realizações que colaborem com a evolução do comportamento humano de sua dimensão mais individual à mais coletiva, fazendo emergir decisões sobre o que precisa ser transformado, sobre como estabelecemos critérios e padrões de relacionamento com nós mesmos, com o outro e com o mundo e como definimos parâmetros de sucesso e metas que orientem nossas decisões como indivíduos, cidadãos e líderes.

*Crédito da foto no topo: Mubaz Basheer/Pexels

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