O ano começou. Respira.

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Opinião

O ano começou. Respira.

Polarização este ano será pior que 2018, mas ainda haverá espaços para conversas saudáveis


3 de fevereiro de 2022 - 11h01

(Crédito: Marcos Medeiros, Sócio e chief creative officer da CP+B Brasil
mmedeiros@cpbgroup.com)

O ano começou. Respira. Já se passaram mais de 20 dias. Foi o tempo de fazer a digestão das rabanadas e todo o seu ritual. Comprar o pão dormido, cortar em fatias nem finas, nem grossas, molhar o pão em leite, ovos, baunilha, um tantão de leite condensado, fritar em óleo bem quente. Em seguida, passar numa mistura de açúcar e canela. Pode comer na hora, depois, no dia seguinte, tanto faz. É uma maravilha de qualquer jeito. Deveria haver uma regra para quando um ano fosse muito lascado, a gente pudesse passar ele nessa mescla de leite com ovos e fritar. Como diz uma amiga: sola de sapato empanada e frita deve ficar bom. Não desejo aquela coisa de apagar as memórias no estilo “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, não. Agora, fritar umas partes ruins não seria de todo mal. Sim, fritar o ano que o diabo amassou, passar em açúcar e canela e deglutir os maus pedaços com alguma doçura.

O ano começou. Respira fundo. Sabe aquela polarização de 2018? Será muito pior neste ano. Abriu o WhatsApp? Respira. Entrou no grupo de família? Respira. No grupo de ex-alunos do seu colégio? Respira fundo. Será uma dureza regada com a displicência com a qual as redes sociais têm tratado a disseminação de fake news. Foram quatro anos para criar um botão de denúncia de notícias enganosas. Se ele vai funcionar? Saberemos na prática. Neste ano, seremos impactados por deep fake, inteligência artificial emulando vozes com quase perfeição. Tudo alimentado por uma pandemia que permitiu a criação e sustentação de narrativas inimagináveis quatro anos atrás. Mas respira. Porque neste ano, também, podem estar mais claros quais são os espaços de preservação das conversas saudáveis. Estamos calejados. Dependendo do tópico, a gente já sabe com quem dá pra conversar. Ou acha que sabe. Não porque devemos falar com quem pensa parecido, apenas, mas porque vimos que alguns tópicos, em alguns espaços, caíram na absoluta incomunicação. Que estejamos prontos para não gastar nossos esforços em uma drenagem de energia sem resultado.

O ano começou. Respira, conta até 10. Kelly Slater defende que foi um absurdo Djokovic ser barrado na Austrália por não tomar vacina. Kelly diz saber mais sobre a saúde dele mesmo do que 99% dos médicos. Os dois desinformam uma grande massa de pessoas. Eric Clapton diz que pessoas vacinadas foram vítimas de uma hipnose em massa. Respira. Tem mais gente do lado da ciência do que contra, mas os que são contra ocupam demais a cabeça. Vou mudar de tópico.

O ano começou. Respira. Elza Soares partiu, mas sua importância nunca será repartida ao meio. Elza é a fuga do planeta fome, a arte que reinventa, a voz que reinterpreta o peso do latão sendo carregado morro acima. Aquele seu característico “scat” foi inventado assim. Ela fazia um “ai” rouco para reclamar do peso da lata d’água. E achou um suingue naquele “ai”. A voz do milênio, a mulher do fim do mundo, aquela que ao ouvir Louis Armstrong disse: “esse cara tá me imitando”. Escute Elza Soares cantando “Meu Guri” sem nenhum instrumento de acompanhamento. As quebras que ela faz no andamento, o choro que ela embute em um trecho, os intervalos. Tudo nela é arte sublime. Tudo nela é cantar até o fim, até o último segundo. Elza respirou pelo Brasil todo. Respire o ar e a música de Elza até encher os pulmões.

O ano começou. Respira e joga o ar para a barriga como ensinam nos exercícios de apneia. Tem Nara Leão sendo redescoberta em sua timidez magnética. A cena final da série da Nara é uma das coisas que me faz acreditar no divino. Que é um divino de arte, de beleza, sem culpa, sem castigo. Nara era de uma serenidade valente que só. Tive a sorte de conhecer Nara através da minha mãe quando eu era uma criança. Lembro de minha mãe falar de sua coragem com uma admiração que poucas vezes vi na Dona Ivone. Nara nunca fez o que dela se esperava. Ferreira Gullar diz no seu poema:

Sua voz quando ela canta me lembra um pássaro, 

mas não um pássaro cantando:

lembra um pássaro voando.

Então, cabe a nós sonhar que um beija-flor voa à frente da câmera de 2022 como quem diz: voe comigo que será mais leve.

O ano começou. Respira. Em um intervalo muito curto de tempo, vi uma frase do Mark Twain ser mencionada duas vezes. “Eu sou um homem velho e conheci um grande número de preocupações, mas a grande maioria delas nunca aconteceu.” Muitas pessoas têm facilidade em criar roteiros catastróficos de preocupações futuras. Se isso acontecer, aquilo outro vai dar errado e, por consequência, aquele fato ocorrerá e isso será muito difícil de lidar. E quando percebemos, nada disso aconteceu. Só o sofrimento antecipado. Talvez uma maneira de olhar para 2022 é quebrar esses ciclos logo no início. O famoso “um dia de cada vez” ou aquele meme do Darwin com o grupo Revelação que diz “deixa acontecer naturalmente”.

O ano começou. Respira, guarda o ar, vai soltando aos poucos. Uma série de acontecimentos nos aguarda e não temos controle sobre quase nenhum deles, por mais que o coach que sobe a montanha (e deixa o grupo em um quadro de hipotermia) diga que temos. Eu torço para que a pandemia chegue ao fim. E para que todos nós tenhamos a sorte na vida de sermos olhados com o amor que o Zuza Homem de Mello olhou para o João Gilberto.

O ano começou. Respira. Como disse o amigo Raphael Despirite, felicidade é mais sobre pequenas coisas. Pia sem louça, sábado sem compromisso, pão de queijo. Adiciono a rabanada no dia seguinte. Todo começo de ano é um oceano a perder de vista. É bom saber valorizar aquele banho de baldinho simples da infância.

*Crédito da foto no topo: iStock 

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