Os rumos da cultura em um cenário de incertezas

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Opinião

Os rumos da cultura em um cenário de incertezas

Primeiras a serem interrompidas durante a pandemia, as atividades culturais continuam sob instabilidade no país – são um dos últimos segmentos econômicos a vivenciarem um processo de abertura


29 de abril de 2022 - 12h00

Mais de 900 mil trabalhadores da cultura foram afetados pelo cenário de pandemia no Brasil em 2020 (Crédito: Wildpixel/ iStock)

Mais que desafiadores. Essa é uma definição que parece razoável quando analisamos os dois últimos anos e os impactos da pandemia no ambiente cultural brasileiro e em nosso mercado de eventos. Dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgados em janeiro apontam, por exemplo, que mais de 900 mil trabalhadores da cultura foram afetados pelo cenário de pandemia em 2020 e, mesmo com a gradativa reabertura dos eventos em fins de 2021, sabemos que a recuperação dos postos de trabalho será lenta.

Primeiras a serem interrompidas durante a pandemia, as atividades culturais continuam sob instabilidade no país – são um dos últimos segmentos a vivenciarem reabertura, com visitações restritas e o natural receio de parte do público em frequentar espaços fechados.

É fundamental lembrar que a análise de um conceito tão diverso quanto o de cultura tem de levar em conta a conjunção de diferentes esferas econômicas (do turismo à arquitetura; da economia criativa à gestão de eventos) que geram empregos diretos e indiretos e dialogam com pilares da vida em sociedade (educação, urbanismo, política, arte etc.). Ao considerarmos as tendências para a área cultural, temos de avaliar essa multiplicidade de elementos e as maneiras como eles contribuem (ou não) para o fortalecimento cultural de um país.

Nesse contexto, o setor cultural sofreu ainda com a regressão nos incentivos públicos no plano federal – incluindo o corte no teto de captação para projetos vinculados à Lei Rouanet, que caiu de 10 milhões de reais para 6 milhões em fevereiro deste ano, em uma Instrução Normativa claramente desestimuladora do uso desse mecanismo. Houve, também, o recuo de mais de 46% no orçamento federal para políticas culturais entre 2011 e 2021, e a queda na participação do meio privado em projetos relacionados à cultura dificultou ainda mais a retomada do setor. Sem falar no veto presidencial à Lei Paulo Gustavo, ocorrida na noite de 5 de abril de 2022.

Um primeiro ponto sobre o qual podemos refletir envolve a própria natureza da relação da população com a cultura, da experiência cultural em si. No período mais crítico da pandemia, vimos, por exemplo, a ampliação do uso das tecnologias e do ambiente digital como um caminho para interações a distância por meio de lives e eventos e visitas virtuais a museus e espaços culturais.

Um legado desse período é o crescimento na atenção das empresas e dos profissionais da cultura às mídias sociais, canais on-line para aproximação com novos públicos, e às possibilidades que o digital oferece em termos de experiência também nas visitas físicas durante o processo de reabertura do mercado. Em contrapartida, ainda que a tecnologia continue como um elemento importante, já em 2021 os formatos virtuais apresentaram sinais de cansaço, indicando um cenário de pós-pandemia no qual as visitas presenciais, o olhar, a experiência física com exposições e a relação com o objeto continuarão sendo determinantes para a vivência cultural.

Nesse contexto, é preciso destacar também o papel decisivo da reaproximação com escolas e educadores, tanto no reaquecimento e relevância de eventos culturais por todo o Brasil, quanto na conquista de públicos mais jovens que poderão (re)integrar em seu cotidiano a visita a espaços de cultura.

Essa reabertura e os novos paradigmas que ela nos apresenta já permitem uma reflexão sobre o futuro de um campo tão determinante na relação das pessoas com a cidade e na formação de cidadãos conscientes e com amplo repertório simbólico.

Outra tendência que pode se consolidar no pós-pandemia envolve a descentralização da experiência cultural. Os grandes centros urbanos ainda concentram a maioria das iniciativas, mas é possível enriquecer a relação de quaisquer cidades com seus habitantes, independentemente de seu tamanho. Exposições itinerantes, formação de novos polos de cultura que dialogam com o crescimento do turismo interno e de proximidade, além de atividades culturais relacionadas com a natureza, espaços abertos e meio ambiente – são inúmeras as possibilidades para o mercado cultural e de eventos.

Pensando na retomada dos postos de trabalho, um dos caminhos que se abrem e que refletem o novo ambiente econômico global está relacionado com a terceirização, a formação de parcerias impulsionadas pelos modelos híbridos de trabalho e a consequente estruturação de empresas mais enxutas e ágeis que, aliás, não necessitam obrigatoriamente de sedes próprias ou fixas para a condução de projetos culturais.

É fundamental considerarmos dois fatores: não só a ampliação do espectro de apoio do setor privado, mas também a retomada de políticas públicas de incentivo mais consistentes no plano federal.
No setor privado, as iniciativas atuais ainda não configuram um mercado consolidado de empresas que acreditam em cultura e a apoiam. É preciso que essa mentalidade se expanda, até mesmo para que o setor cultural não permaneça refém das incertezas políticas tão comuns ao Brasil.

Sobre a questão dos incentivos públicos, precisamos ficar atentos aos cenários que se desenham em um ano de eleições. Seja qual for o contexto nos próximos anos, a importância da cultura para a formação de um país é incontestável, e o que se espera das lideranças é que esse valor seja levado em conta, em prol de nossa população e do futuro do Brasil enquanto nação.

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