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Opinião

Equidade de gênero pra valer?

Além de uma distribuição equilibrada, o governo sueco se declara feminista, enfatizando que a igualdade de gênero é vital para a sociedade e que ainda há mais a ser feito para alcançá-la   


26 de maio de 2022 - 10h01

(Crédito: VectorMine/Shutterstock)

Recebi algumas sugestões para falar sobre a equidade de gênero aqui na Suécia. Faz sentido: dos cinco primeiros países no Global Gender Gap Index 2021 Rankings do Fórum Econômico Mundial, quatro são por aqui. Neste último ranking, a Suécia ocupou a quinta posição, caindo um lugar comparado a 2020.  

O princípio é simples: todos – homens, mulheres e, apesar de não ter visto escrito, entendo que logicamente também se estenda aos não binários – têm o direito de trabalhar e se sustentar, ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal e de viver sem medo de violência ou abuso. A equidade de gênero não significa somente uma igual distribuição de homens e mulheres em todas as esferas da sociedade, mas também que a experiência de ambos seja igualmente usada para promover o progresso. 

Partindo desde princípio, seria um contrassenso se o governo não observasse uma representatividade equilibrada, certo? E, sim, hoje, dos 23 ministérios da Suécia, 12 são ocupados por mulheres. 47% dos integrantes do parlamento são mulheres e a primeira-ministra, Magdalena Andersson, também é mulher. Aliás, não só aqui: as vizinhas Dinamarca e Finlândia também têm primeiras-ministras e a Noruega, até novembro do ano passado, tinha uma mulher no mais alto cargo do governo. 

Além de uma distribuição equilibrada, o governo sueco se declara feminista, enfatizando que a igualdade de gênero é vital para a sociedade e que ainda há mais a ser feito para alcançá-la.   

Sim, precisa ser feito porque, se no governo o equilíbrio foi alcançado, no board das empresas não se pode dizer o mesmo. Um relatório sobre o tema de 2020 diz que 10% das empresas suecas listadas em bolsa têm mulheres como CEO, e 35% como parte do board. Há também um relatório da Fundação Allbright que critica as startups de tecnologia na Suécia por serem excessivamente masculinas e brancas. 

O relatório Tightness in the Top do ano passado aponta uma melhoria. CEOs mulheres são 4 vezes mais comuns agora que há 10 anos, mas outros países estão se saindo melhor neste quesito, como Bulgária, Croácia e Eslováquia. 

Não preciso lembrar o quanto tudo isso é distante do Brasil, que ocupa a 93ª posição no ranking Gender Gap mencionado no início, com 15% de mulheres no Congresso e uma coleção de declarações misóginas e sexistas vindo da autoridade máxima da nação.  

E como isso é percebido no dia a dia? Para começar, preciso advertir que minhas observações não têm qualquer consistência estatística. Vivo em um ambiente bastante multicultural e, apesar de bem mais perto do Círculo Polar Ártico do que da Linha do Equador, com muitos brasileiros. E, naturalmente, convivo com mais pessoas que partilham de valores próximos aos meus, e isso muito antes dos algoritmos das redes sociais nos colocarem em bolhas. 

Dito isto, posso dizer que vejo algo bem próximo do princípio que mencionei no começo. Casais com filhos, vivendo juntos ou não, compartilhando as tarefas relativas à educação, saúde e recreação das crianças. Onde a vida profissional de ambos tem valor, independente da atividade que ocupem e da contribuição financeira de cada um. Homens e mulheres com seus momentos de diversão com os amigos, enquanto o outro fica com as crianças – se a programação não as incluir. 

Não vejo medo de violência – física, sexual ou verbal. Temos medo da guerra aqui ao lado. Tenho medo tanto de entrar quanto de não entrar na OTAN. Mas isso já é outro assunto. 

E, diferente do que li e ouvi antes de vir para cá, não são as mulheres que tomam a iniciativa. A mulher pode tomar a iniciativa se quiser, não precisa ficar sentadinha no baile esperando seu príncipe convidá-la para dançar. Mas o mais comum continua sendo que os homens o façam — não sem um incentivo alcoólico na maioria das vezes. Mas esta situação, independente de quem dê o primeiro passo, é aqui também cada vez mais rara. Estamos todos na era dos aplicativos de relacionamento.

Fechando com os apps: não pude deixar de notar que as primeiras vítimas do Golpista do Tinder são uma norueguesa e uma sueca. Será porque é uma sociedade em que se confia nas pessoas?

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