O fim do checkout está próximo
Inteligência Artificial e Comércio Agêntico definem a nova era dos pagamentos
O varejo não está apenas se digitalizando: ele está se tornando autônomo. Essa mensagem ficou mais clara do que nunca nesta edição da NRF Big Show, o maior evento de varejo do mundo. Se em 2024 e 2025 falou-se muito em como a IA poderia ajudar o marketing ou o atendimento, agora o protagonismo é do Agentic Commerce – o comércio feito diretamente pelos agentes de IA.
Para o setor de pagamentos e adquirência, essa será a a maior mudança estrutural desde o surgimento do e-commerce, três décadas atrás. E essa transformação acontece porque, com o Agentic Commerce, saímos de um modelo em que o consumidor “vai às compras” para um modelo no qual os agentes de IA “executam o consumo”. Isso muda tudo.
A transição do comércio de hoje para o comércio do mundo dos agentes de IA vai redefinir os pagamentos, que deixarão de ser um ato consciente de checkout para se tornar uma decisão logística invisível tomada por algoritmos. A própria ideia de “experiência no checkout” deixará de fazer sentido em pouco tempo.
Pagamento, uma decisão do agente
Está claro que a jornada de compra está sendo “achatada”. A partir do momento em que agentes de IA passam a atuar em nome do consumidor, o momento do pagamento deixa de ser um passo isolado e se torna uma decisão embutida nos processos de negócios.
Imagine um agente de IA que monitora a despensa, as finanças e a agenda do usuário. Ele não apenas decide o que comprar, mas onde comprar e como pagar. O agente avalia, em milissegundos, aspectos como:
• Qual cartão oferece o melhor cashback hoje?
• Qual método de pagamento (Pix, carteira digital ou crédito) faz mais sentido para o fluxo de caixa do usuário naquela semana?
• Existe uma promoção de parcelamento sem juros que o usuário prefere?
Nesse cenário, a experiência de pagamento se torna invisível ao cliente: ele simplesmente recebe o produto no momento desejado. O pagamento deixa de ser uma “interrupção” na jornada do cliente, ou um passo que puxa para o lado racional.
Nessa mudança, o risco para os adquirentes tradicionais é a perda de relevância da marca no momento da escolha. Se o adquirente não estiver integrado ao fluxo de decisão do agente de IA, ele deixa de ser uma opção a ser considerada, sendo excluído da transação. Por outro lado, quem estiver bem integrado nessa jornada e assumir uma posição de relevância pode deixar de ser “uma maquininha” para se converter no motor de decisão financeira do agente.
Os “jardins murados” caem por terra
Nessa transformação do mercado, um dos grandes destaques é a discussão sobre o Universal Commerce Protocol (UCP).
Uma iniciativa do Google em parceria com dezenas de varejistas e representantes da indústria de meios de pagamento, o UCP é um protocolo aberto de interoperabilidade que promete conectar varejistas, plataformas digitais, meios de pagamento e provedores de identidade de forma fluida.
Não é à toa que o lançamento do UCP acontece agora. Historicamente, o varejo e os pagamentos foram construídos em “jardins murados” – estruturas isoladas e controladas por empresas específicas. A IA agêntica, porém, exige que os sistemas conversem entre si, pois um agente de IA precisa ser capaz de transacionar entre diferentes ecossistemas sem atrito para entregar o checkout invisível do qual falamos.
Para os adquirentes, isso significa um radical deslocamento de poder, em que as interfaces proprietárias perdem força para uma infraestrutura interoperável. Quem não estiver “plugado” nesses padrões globais corre um risco real de ser desintermediado e sair do jogo. A conectividade via APIs orientadas a agentes passa a ser o requisito básico de sobrevivência.
O novo papel da adquirência
Os modelos de IA Agêntica exigem que os pagamentos sejam “inteligentes by design”. Não se trata mais de apenas processar uma transação, pois o pagamento deixa de ser uma transmissão de recursos financeiros de um ponto a outro da cadeia. No mundo do Agentic Commerce, o pagamento passa a incorporar:
• Autorização contextual: a IA entende que a transação faz parte de um padrão de consumo legítimo do agente, reduzindo falsos casos positivos.
• Prevenção de fraude em tempo real: o monitoramento deixa de ser baseado em regras estáticas e passa a ser preditivo e comportamental.
• Orquestração dinâmica de rotas: o sistema escolhe o caminho mais eficiente (menor custo e maior taxa de aprovação) para cada transação, de forma personalizada.
• Tokenização e identidade: a segurança é garantida pela identidade digital do agente e do usuário, vinculada de forma indissociável.
Nessa nova arquitetura, o papel do adquirente evolui exponencialmente: a empresa deixa de ser uma mera processadora de transações para se tornar uma orquestradora de risco, custo e conversão para o varejista. Uma presença estratégica que exige que os adquirentes assumam novos papeis para não se tornarem obsoletos.
Esteja atento aos riscos estratégicos
O caminho para o Agentic Commerce e a redefinição do papel dos adquirentes não é isento de perigos. A commoditização da adquirência é o maior risco: se todos processam pagamentos, tem vantagem quem cobra menos, transformando tudo em uma questão de escala operacional. Para fugir disso, é preciso agregar valor a partir da inteligência e da visibilidade de dados, evitando uma dependência excessiva das grandes plataformas de IA.
Na minha visão, os fatores que determinarão os vencedores nesta nova era de negócios incluem a aderência total a protocolos abertos (que trazem flexibilidade e eficiência), a incorporação da IA aos processos de risco e autorização, o desenvolvimento de capacidades de processamento multicanal e multiecossistema e a criação de propostas de valor baseadas na construção de confiança.
O fato é que o futuro dos pagamentos não será definido pela capacidade de processamento bruto de transações: quem habilita decisões autônomas com segurança, escala e interoperabilidade se torna protagonista. Pagamentos e adquirência deixam de ser uma “infraestrutura silenciosa” do varejo: a partir de agora, se tornam a camada estratégica que permite que o Agentic Commerce efetivamente acontece. Nesta nova era do varejo, pagar não é o fim da jornada – é o motor da inteligência das empresas.