“Varejo deve adotar posição otimista conservadora”, diz IDV
Jorge Gonçalves Filho, presidente IDV, destaca como o setor deve navegar no desafiador ano de 2026

Jorge Gonçalves Filho, presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) (Crédito: Divulgação)
Diante de um calendário atípico, marcado por eleições, Copa do Mundo e feriados prolongados, fatores que podem fragmentar a atenção e o bolso do consumidor, além da constante mudança de comportamento dele e da volatilidade econômica, 2026 projeta-se como um ano desafiador para o varejo brasileiro.
Esse cenário complexo exigirá que as empresas adotem uma postura “otimista conservadora” neste ano, na visão do presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), Jorge Gonçalves Filho.
Além de traçar um panorama detalhado sobre como o setor deve navegar nesse contexto, em entrevista ao Meio & Mensagem, o executivo reforça que o varejo como um todo, independente do tamanho, deve se atentar à inteligência artificial. “A IA pode ser uma grande aliada na eficiência e no atendimento ao cliente. Tem ainda uma certa visão de que são as grandes empresas, mas tem muito acesso, muitas novidades na área de inteligência artificial para ajudar também o médio e o pequeno. É um ponto que vai transformar também o futuro do varejo”, complementa.
Confira a entrevista na íntegra abaixo:
Meio & Mensagem – Como o varejo brasileiro deve se comportar em 2026 diante de um ano eleitoral, de Copa do Mundo, considerando o humor do consumidor, a volatilidade econômica e a taxa selic elevada?
Jorge Gonçalves Filho – A renda disponível das famílias está mais comprimida. Apesar de o crescimento previsto para massa salarial, o alto nível de endividamento das famílias, as condições de créditos mais onerosas aos consumidores, dada as taxas elevadíssimas de juros, podem ser fatores que vão afetar negativamente as decisões de compra. Há crescimento de massa salarial, mas per capita não cresce tanto. Há as taxas elevadíssimas de juro, o crédito de quem está inadimplente (lembrando que 80% das famílias tão com dívidas e 35% tão inadimplentes). Isso pode afetar negativamente a previsão de compras e principalmente de preços de itens com preços mais elevados, como bens de consumo duráveis. A situação econômico-financeira das famílias indica uma maior cautela dos consumidores, priorização de produtos essenciais e adiar algumas compras pode ser um aspecto no começo do ano.
M&M – Os hábitos de consumo que ganharam força em 2024 e 2025, especialmente nos canais digitais e no comportamento omnicanal, devem se consolidar ou há sinais de reversão?
Filho – A mudança do comportamento dos consumidores nos últimos anos, em especial pós-pandemia, está sendo transformadora e desafiadora para ser compreendida e atendida pelos varejistas. Hoje, a interação com os consumidores dá-se pelos múltiplos canais de comunicação, pelo site, pelas mídias digitais, pelo WhatsApp, pelo streaming, mesmo o telemarketing e outros meios, obrigando todos esses meios a conviverem integrados com a operação física da loja. Esse é o grande desafio. E aí resulta a grande importância do desenvolvimento de tecnologia da informação, visando atender todo esse complexo ecossistema, tem que estar tudo integrado, porque hoje o consumidor tem múltiplas canais de entrada para chegar no seu produto, chegar no varejista. E o varejista tem que estar com tudo isso integrado para poder atender da forma mais eficiente possível.
M&M – O “pós-tarifaço” deixou algum rastro no varejo? Houve estímulo ao consumo interno, reorganização das cadeias ou o impacto foi neutro?
Filho – A nossa avaliação foi de pouco ou nenhum efeito no varejo. Não existiu aquela eventual sobra de produto para o mercado interno. O setor de exportação rapidamente se acomodou para novos mercados, buscou e conseguiu novos mercados. A queda que observamos nos preços, em especial hoje nos alimentos, é mais em decorrência da boa oferta interna e queda da inflação do que o tarifaço. De forma geral, o tarifaço não teve efeitos significativos no varejo.
M&M – Que fatores macroeconômicos (juros, renda, crédito, confiança) devem ditar o ritmo do varejo em 2026, e que tipo de planejamento as empresas precisam adotar para não serem pegas de surpresa?
Filho – As empresas devem adotar uma posição otimista conservadora. Porque os indicadores econômicos se mostram bons. Tem o crescimento da renda e da massa salarial; tem oferta de crédito, se bem com taxas elevadíssimas; tem o crescimento da confiança do consumidor; o desemprego no menor nível histórico, 5,4%; tem os pacotes de benefícios e injeção de dinheiro no mercado pelo governo federal, como a isenção de imposto de renda até R$ 5.000, que vai dar em torno de R$ 300 livre por mês para quem ganha essa faixa para gastar; tem o pacote de R$ 40 bilhões de materiais de construção, tem a Bolsa Gás, a Bolsa Energia. Tem uma série de injeção de dinheiro no mercado para 2026. As questões que ficam, entre outras são: esse dinheiro vai para o varejo? Será que vai para o varejo ou vai para pagar dívida? O consumidor terá capacidade de tomar mais empréstimos? Se tem 80% das famílias com dívida e 35 inadimplentes, será que mesmo tendo dinheiro eles vão ter capacidade de tomar empréstimo? Quanto desse volume de dinheiro vai para as bets, que é uma grande questão não resolvida? E um ano que tem um desafio maior para alguns setores bons, para outros não, talvez alimento seja bom, turismo, mas se pegar um ano que está com muitos feriados emendados, que é ruim para o varejo, Copa do Mundo de futebol e eleições. Por isso que é otimismo moderado.
M&M – Considerando a pressão de custos, o impacto das tarifas e a competição global, quais movimentos estratégicos (cadeia de suprimentos, preços, regionalização, promoções) devem ganhar força no varejo brasileiro no próximo ano?
Filho – No próximo ano não tem muito o que fazer, é manter o que está sendo feito, porque entramos num ano que vai ter muitas indefinições e tem a questão política para saber o que vem pela frente, saber quem ganha, quais são os planos do novo governo. Agora, a grande transformação no varejo será impulsionada pela reforma tributária. Os impostos sairão da cobrança na origem para serem cobrados no destino. Isso muda toda a matriz logística, por exemplo. Também a composição de custos e preços, a formação de preço, serão alteradas, porque os impostos agora não serão cumulativos, ele vai andando na cadeia. Todo mundo vai ter que reestudar seus preços, rever as suas margens, rever a forma de comprar. E a partir de 2027 que vamos sentir mais, porque o ano que vem é só o ano de teste. A partir de 2027 que entra mesmo efetivamente a implantação da reforma, vamos ter uma grande transformação do varejo. Muita gente não percebeu o tamanho dessa transformação ainda. O médio, o pequeno vai sentir na hora que tiver que fazer. E, além da questão das plataformas de e-commerce, como enfrentar, porque elas tão com mais agressividade de preços. Tão vindo novas plataformas. Estão com estrutura independente de logística hoje, não dependem tanto do Correio, como dependiam no início, tanto que você vê que a quantidade de pacotes que entra no país não caiu tanto, caiu 4%, e o Correio está despencando em prejuízo. Porque essas plataformas se estruturaram, abriram CD no país, fizeram parcerias logísticas para atender nacionalmente os consumidores. Tem essa estratégia de saber para 2027 como vou reorganizar o meu varejo frente às mudanças estruturais da reforma tributária e como vou enfrentar essas plataformas que tão se estruturando para atuar internamente, independentemente dos fatores externos. Esses são os grandes riscos para tomarmos cuidado.