A publicidade brasileira é respeitada além da criatividade
Como a autorregulação colabora para o desenvolvimento de ideias criativas, inovadoras e premiadas globalmente
Neste ano o Brasil foi homenageado pelo Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions como “Creative Country of the Year”. Tratou-se do primeiro país a receber esse reconhecimento que, a partir de agora, fará parte do calendário do festival. Essa distinção ressalta a influência e excelência brasileira no cenário global da publicidade e criatividade mundial.
A escolha do Brasil advém de seu desempenho no Cannes Lions ao longo do tempo. Desde 1971, o Brasil conquistou 2.018 Leões, incluindo 26 Grand Prix, figurando constantemente entre os 4 países mais premiados e ocupando o 2º lugar em 2014 e 2024. Uma performance que revela um impacto proporcionalmente maior que tamanho do nosso mercado publicitário.
Agências e criativos brasileiros são capazes de produzir trabalhos de classe internacional com menos recursos e em um ambiente econômico mais desafiador em comparação a mercados maiores. O que demonstra uma profunda capacidade criativa que transcende o investimento financeiro e que não é meramente estética, mas também fundamentada em uma abordagem pragmática, adaptável e culturalmente rica para a inovação e resolução de problemas.
Mas quem acompanha o mercado e o ecossistema publicitário nacional pode também acrescentar outros fatores que contribuem para a força criativa e relevância da nossa atividade no país: um arcabouço abrangente e consolidado de autorregulação.
Sim. É o nosso sistema de autorregulação que simultaneamente nos permite ousar e desenvolver ideias criativas inovadores e uma estrutura regulatória clara acerca do que pode ou não ser feito: tudo descrito com clareza e abrangência no Código rasileiro de Autorregulamentação Publicitária, o CBAP.
E, na dúvida, permite a consumidores, sociedade civil e concorrentes, representar junto ao Conselho de Ética do Conar para que ele julgue a conformidade da campanha ou peça aos preceitos do Código.
O próprio Conar, inclusive, é muito reconhecido internacionalmente, como no recém-conquistado Prêmio de Reconhecimento Especial do International Council for Ad Self-Regulation (Icas), por seu desempenho excepcional e comprometimento com a autorregulamentação publicitária.
Devemos também ao Cenp a preservação do que se convencionou chamar de “modelo brasileiro”, que mantém as atividades de criação e mídia sob os auspícios das agências – que para tal, precisam atender a um padrão técnico estabelecido – que tem permitido uma saúde concorrencial para que as agências sigam desenvolvendo estratégias de criação e mídia para alcançarem os públicos das marcas e instituições que atuam no Brasil.
A autorregulação da atividade publicitária brasileira se baseia em três importantes pilares: a legislação, as regras estabelecidas entre os elos do ecossistema e as instituições criadas e mantidas por agências, veículos e anunciantes para garantir de forma ágil o respeito às regras e normas éticas da atividade: Conar e Cenp.
O Conselho de Autorregulamentação Publicitária – Conar
Fundado em 1980, o Conar é uma organização não governamental mantida pela contribuição das principais entidades da publicidade brasileira, com seus conselheiros atuando voluntariamente. Entre as entidades fundadoras e cofundadoras do Conar estão, a ABA, ABAP, ABERT, ANER, ANJ, Central de Outdoor e IAB.eti
É dele a missão de colocar em prática o CBAP criado em 1977 em resposta a uma iniciativa do Governo Federal que avaliava sancionar uma lei para criação de um órgão federal que teria função de “pré-aprovar” toda a publicidade a ser veiculada no país.
O principal objetivo do Código é a regulamentação das normas éticas aplicáveis à publicidade e propaganda, assim entendidas como atividades destinadas a estimular o consumo de bens e serviços, bem como promover instituições, conceitos ou ideias.
Um dos mais fundamentais aspectos do CBAP é que todo anúncio deve respeitar as leis do país. É por isso que não vemos publicidades de pessoas andando sem cinto de segurança nos carros. Se não pode nas ruas, não pode na propaganda.
Mas o CBAP não se restringe ao que diz a lei. Dentre seus princípios gerais estão a verdade e honestidade: a publicidade deve ser verdadeira e não induzir o consumidor a erro. Não deve omitir ou enganar quanto a características, preço, origem ou benefícios do produto ou serviço.
Deve se pautar pelo respeito ao consumidor: o seu conteúdo deve respeitar a dignidade da pessoa humana, os valores éticos e sociais da sociedade brasileira, não explorando o medo, a superstição, a ignorância ou a inexperiência do consumidor.
A responsabilidade social: a publicidade deve contribuir para o fortalecimento de valores cívicos e sociais, não estimulando comportamentos ilegais, violentos, discriminatórios ou prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.
E a identificação publicitária: toda peça de publicidade deve ser claramente identificada como tal, inclusive em casos de publieditoriais, influenciadores digitais e conteúdo patrocinados.
Existem também diretrizes específicas por segmentos, setores e públicos, como a publicidade voltada para o público infantil, a de bebidas alcóolicas, medicamentos e produtos de saúde e, mais recentemente, a de divulgação de jogos e apostas.
O que pode parecer distante e teórico se torna bastante prático quando olhamos, por exemplo, para o balanço de sua atuação no ano passado. Foram abertas 308 representações (um número 14% maior em comparação com o ano de 2023). As reclamações de consumidores que deram origem a essas representações tiveram um aumento ainda maior, de 17%.
Dos casos julgados, quase 80% sofreram alguma forma de reprovação (que podem ser advertência, sustação ou alteração), o que demonstra a eficácia do CONAR em identificar e atuar sobre publicidades que violam o código de autorregulamentação.
Conselho Executivo das Normas-Padrão – Cenp
Também conhecido como Fórum de Autorregulação do Mercado Publicitário, o Cenp é uma organização de direito privado e sem fins lucrativos. Foi fundado no dia 16 de dezembro de 1998 pelo mercado publicitário, com o objetivo de promover seu desenvolvimento com relações éticas e transparentes.
O Cenp tem como principal objetivo evitar condutas desleais, do ponto de vista ético e comercial, entre os principais agentes da publicidade brasileira. Essa regulação envolve agências de publicidade, veículos e anunciantes, e é feita por meio do documento Normas-Padrão da Atividade Publicitária.
O compilado de regras foi criado pelo Cenp e estabelece a capacitação técnica básica de uma agência e como deve ser o relacionamento ético com o setor, focando nas melhores práticas e na legislação que regula o mercado.
O fórum também funciona como um local de debates, difundindo boas práticas, ideias, dados e conceitos que valorizem e promovam o crescimento do setor. O Cenp atua em quatro áreas:
- Certificação da qualidade técnica das agências de propaganda, assegurando que elas tenham, por exemplo, uma estrutura física e de pessoal coerente para praticar as atividades.
- Relaciona e torna público os valores praticados pelos veículos, o que inibe a cobrança desleal de preços abusivos no mercado.
- Credencia serviços de pesquisa e informações de mídia oferecidos por empresas especializadas e, também, empresas que atuam na verificação da circulação de veículos de comunicação impressos.
- Atua como um fórum de discussão permanente sobre assuntos e regulamentações técnicas e comerciais da atividade.
As regras claras e bem implementadas permitem, simultaneamente, uma publicidade mais ousada e mais verdadeira. Mais interessante como conteúdo, mas dentro dos mesmos critérios que definem a vida dos cidadãos e consumidores do país. Garante que as inovações e novidades alcancem rapidamente o mercado, preservando os principais valores cultivados pela nossa sociedade.
Além disso, contribuem para um aspecto crítico em nossa sociedade contemporânea: preservar a credibilidade e confiabilidade das pessoas e instituições na comunicação publicitária.
Não é coincidência que tenhamos um país tão celebrado pela qualidade de seu mercado publicitário.