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Opinião

O que pode nos tornar obsoletos amanhã?

Planejar em tempos de aceleração exponencial das tecnologias mudou, mas muitos continuam traçando estratégias olhando apenas o retrovisor


19 de dezembro de 2023 - 6h00

Voltando de uma viagem a trabalho escolhi assistir durante o voo o, então, recém-lançado filme sobre a ascensão e o declínio daquele que foi o queridinho de muitos executivos, o BlackBerry. (Quem não amava aquele tecladinho?)

Precursor dos smartphones, o BlackBerry chegou a ter quase 45% de share de todo mercado de telefonia móvel mundial e, em 2007, foi a empresa mais valiosa no Canadá – mais de US$67 bilhões. Em 2016, por inúmeras falhas de gestão, chegou ao declínio vendendo a licença de fabricação a outras empresas e, em 2022 encerrou qualquer operação de suporte aos seus telefones ainda existentes.

Já ouvimos diversas histórias sobre empresas que se tornaram obsoletas por não enxergarem as transformações do mundo à sua volta, mas achei bastante válido refletir sobre esse emblemático caso, nesta época do ano quando estamos focados em pensar nossas estratégias para os próximos anos.

Por mais que conheçamos todas essas histórias, porque continuamos planejando nossas estratégias da mesma forma, olhando o retrovisor? Por que continuamos olhando somente nossos concorrentes diretos para pensar no futuro? Por que temos tanta dificuldade em olhar o longo prazo com foco e compromisso?

O case Blackberry escancara a máxima que diz “o que nos trouxe até aqui não nos levará adiante”, título do livro de Marshall Goldsmith. A startup que nasceu com uma visão revolucionária e centrada na necessidade de segurança e confiança dos seus usuários se perdeu ao longo da jornada.

Em 2007, Steve Jobs lançava o iPhone com touchscreen, depois, o Google com Android oferecendo um ecossistema de aplicativos, e o cliente passou a ter novas necessidades. Enquanto isso, a BlackBerry continuou apegada ao seu sistema operacional arcaico, e ao seu teclado que, até então, era seu grande diferencial. Quando entenderam a nova dinâmica, já era tarde demais. Pensando no seu negócio, que reflexão esse caso te traz? Será que estamos apegados demais ao nosso diferencial competitivo de HOJE? Será que estamos conectados às novas necessidades dos clientes? Será que estamos explorando as tendências futuras com profundidade e seriedade?

Planejar em tempos de aceleração exponencial das tecnologias mudou. Hoje, as empresas precisam adotar uma abordagem diferente para pensar e planejar o futuro: simultânea e flexível, evoluindo de uma visão analítica e linear para uma abordagem com foco para inovação.

Chamamos de Planejamento Ambidestro aquele que consegue dar a direção ao curto prazo e ao core business, e traçar uma visão futura inspiradora e explorar a inovação disruptiva, ao mesmo tempo. Nessa nova abordagem, o planejamento é colaborativo e interativo, permitindo experimentação e aprendizagem para desbravar novas, e desconhecidas, rotas. E nesse modelo promovemos uma visão estratégica que compõe além do foco no core business, o foco em áreas de crescimento da organização e na disrupção.

Para que ele possa acontecer, é fundamental garantir que a priorização dos investimentos considere critérios que equilibrem a sustentação do negócio e a exploração de inovação. O que definitivamente é um grande desafio. É comum vermos a inovação com investimento desproporcionalmente menor em relação ao foco no curto prazo e iniciativas mais disruptivas sendo desligadas antes do tempo, por ausência de métricas que guiem a tomada de decisão para dar tração ou pivotar iniciativas. Além disto, a abordagem de construir um portfólio de apostas, como um “venture capital”, exige um shift de mindset: de uma lógica de orçamento, para uma lógica de investimento. E a avaliação do resultado é menos sobre “esses dados são bons ou ruins?” e mais “o que esses dados nos dizem sobre o que devemos fazer a seguir”? Como devemos pivotar nosso portfólio com base no que aprendemos?
Qual é a mix ideal de inovação incremental, adjacente e transformacional/disruptiva em nosso portfólio de inovação?

Esse novo modelo de planejamento exige que a Cultura e o modelo de Gestão estejam alinhados para que ela possa sair do papel. Uma abordagem holística é primordial nesse processo, envolvendo todas as áreas da empresa para seguirem na mesma direção.

Embora a inovação seja uma pauta recorrente, ainda gera insegurança em muitas organizações. Mas os esforços para inovar tendem a ser efetivos quando integrados ao plano estratégico corporativo. Entender as tendências atuais e futuras, juntamente com as necessidades dos clientes, são o ponto de partida para desenvolver teses de inovação e torná-las parte integral do planejamento estratégico.

Vida longa às organizações ambidestras.

* Esse artigo foi escrito em colaboração com Lilian Cruz, minha sócia na Ambidestra.

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