Saúde mental não é assunto de RH

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Opinião

Saúde mental não é assunto de RH

Qualquer pessoa pode causar impacto positivo ou negativo ao ambiente corporativo


16 de novembro de 2022 - 14h00

(Crédito: SurfsUp/Shutterstock)

Abro este texto com uma pergunta: Você conhece algum gestor (não precisa ter sido seu) que impactou negativamente pessoas do seu time ou já trabalhou com aquele colega conhecido nos corredores por maçã podre, que contamina um grupo inteiro? Se respondeu não pra pelo menos uma das duas perguntas, você é um privilegiado sim.

Pesquisas indicam que as pessoas não deixam empresas e sim chefes ruins e eu me incluo nessa estatística. Um artigo do Great Place to Work divulgou que, de acordo com a Gallup, 75% dos colaboradores se demitem pelo relacionamento ruim com os gestores. Reforçando o resultado, a Michael Page levantou um dado similar: 80% das demissões acontecem por causa do chefe.

O estrago que um gestor mal preparado ou sem tato social causa pode acompanhar os liderados por anos. Desde crises de ansiedade e pânico até mudança de carreira, resultado de assédio moral, feedbacks irresponsáveis e falta de escuta ativa e empatia. Esses são alguns exemplos do que eu já ouvi, vivi e testemunhei de amigos e colegas.

Ainda há a crença que a gestão é o caminho natural de crescimento na carreira, mas não é. A gestão é uma profissão por si só. Precisa ter preparo e habilidades muito específicas pra liderar pessoas, porque estamos diariamente em contato com seres humanos com emoções e problemas complexos.

Desde que assumi a posição de gestão, entendo meu cargo como uma grande responsabilidade. Não só de desenvolver profissionais e seus pontos fortes – e dar a eles oportunidades que meus melhores gestores me deram pra chegar onde estou – mas também de ser capaz de dar as melhores condições deles serem eles mesmos e se sentirem seguros e acolhidos dentro do ambiente de trabalho.

É sim responsabilidade dos líderes zelar pela saúde mental dos seus liderados, seja não sendo um fator prejudicial, seja acolhendo suas crises, e precisamos ser preparados pra isso. Mas não, a responsabilidade com a saúde mental não é só nossa e do RH, ela também está em cada um dos colaboradores dentro de uma empresa.

E aqui entram as maçãs podres que citei no início desse texto. Pessoas que criticam o trabalho dos colegas de forma pejorativa em uma reunião repleta de pessoas, que criam intrigas e competição entre diferentes áreas, que são agressivas e desrespeitosas. Sabemos que não há mais espaço pra esse tipo de comportamento, da mesma forma que sabemos que essas maçãs ainda estão em todos os lugares.

Vinte anos de carreira me deram a oportunidade de vivenciar um pouco de tudo. Tive gestores e colegas que me inspiraram e transformaram o meu futuro profissional, que me causaram taquicardia sempre que estavam por perto, que me levaram a pedir demissão. Vi amigos tendo crises de pânico, pessoas extremamente competentes questionando sua capacidade, colegas desistindo da profissão que em diferentes circunstâncias seria o casamento perfeito.

Que cada vez mais a saúde mental seja tema de discussões e programas de treinamento, que ela seja olhada com respeito e empatia, que todos um dia vejam o peso que ela tem nos resultados de uma empresa. Ela está ali na produtividade, está na taxa de turnover, está nos burnouts que os colaboradores têm vergonha de assumir por medo de serem demitidos.

E qual é o meu ponto com tudo isso? Que cada um de nós tem grande impacto nas pessoas que estão ao nosso redor. Ele pode ser positivo, inspirador, mudar a vida de alguém para melhor, ou ele pode ser negativo, afetar permanentemente a saúde mental e até destruir carreiras.

A inspiração pra esse texto, além da reflexão sobre o que vejo todos os dias por aí, veio de quando me disponibilizei pra falar sobre saúde mental no setembro amarelo e recebi como resposta que era um assunto da área de recursos humanos. Em um primeiro momento achei que fazia sentido, mas logo depois comecei a questionar.

Precisamos sim ser treinados e preparados conforme vamos subindo e tendo mais responsabilidades, mas o cuidado com o outro precisa ser de base. De novo, o cuidado com o outro precisa ser de base.

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