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Opinião

Vamos estar nos provocando

“Tal e qual uma moda, algumas expressões surgem com certo brilho, viram febre, começam a cair em desuso, entram em questionamento, somem e aparecem anos depois em uma releitura modernizada”


18 de julho de 2022 - 15h00

(Crédito: Marcos Medeiros)

Deve haver um ciclo de vida das expressões corporativas que ainda não sabemos exatamente como funciona. Não sabemos qual a duração, nem ao menos se uma expressão morreu de morte morrida ou de cansaço pela repetição. Expressões corporativas surgem no silêncio que antecede uma reunião? Será? Naquele momento em que ninguém sabe exatamente o que falar, uma pessoa, de repente, soltou como se desconhecesse o tamanho do eco: “Precisamos quebrar esse paradigma”. E lá se foi a expressão ecoar por outras salas de reuniões, por palestras, por conversas rápidas em eventos. Houve um tempo em que não importava qual era o assunto, alguém sempre dizia: é hora de quebrar paradigmas. Podia ser uma coisa banal: “Oi, quanto tempo? Como está lá? Ah, que bom! Olha, precisamos quebrar esse paradigma de a gente só encontrar por acaso, hein?”.

Tal e qual uma moda, algumas expressões surgem com certo brilho, viram febre, começam a cair em desuso, entram em questionamento, somem e aparecem anos depois em uma releitura modernizada. Quebrar paradigmas era a frase da vez quando comecei nessa brincadeira. Demorei a perceber que falar em quebrar paradigmas nem sempre significava que eles seriam realmente quebrados. Era um vício de linguagem que parecia aquele efeito carioca de combinar coisas que jamais acontecerão: “Aê, vou passar lá mais tarde, hein?”.

Antes de continuar a discorrer sobre o tema, há algo fascinante nas palavras, expressões, ditados e nos jeitos de falar que dominam uma época. Até o gerúndio teve o seu momento de glória. Em um artigo de 2001, o Ricardo Freire escreveu, com a maestria característica, o que era viver naquele tempo. “A primeira pessoa que inventou de estar falando ‘Eu vou tá pensando no seu caso’ sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade linguística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas. Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como ‘O que cê vai tá fazendo domingo?’ ou ‘Quando que cê vai tá viajando pra praia?’, ou ‘Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa’.”

Lembro de adultos que estavam com a cuca fundida e eu não entendia bulhufas. “Duvide-o-dó” era um jeito alongado e pausado de afirmar que você duvidava muito; tutu era dinheiro; fogo na roupa podia ser uma pessoa e sebo nas canelas era uma ação. Gírias marcam o tempo. Expressões saídas de personagens de novelas, programas humorísticos e de memes também. “Mamilos são polêmicos” é uma expressão que já tem mais de 11 anos.

Expressões corporativas também marcam o tempo. “Estar na mesma página” e “porque no fim do dia” foram importadas do inglês e ficaram. “Estar na mesma página” sempre me pareceu curiosa. Entendo que ela tenha o sentido de “estar de acordo”, mas na minha cabeça vem a imagem de um livro em que não estamos avançando na leitura. Estamos na mesma página com esta imagem que me vem? E o “advogado do diabo”, expressão nascida no latim, que é levada para a língua inglesa no século 18 (obrigado pelo Google alcançado) e invade reuniões? O diabo precisa mesmo de um advogado?

Se ontem era sobre quebrar paradigmas, hoje é sobre deixar uma provocação. Provocação é a palavra da vez em todas as suas formas. Pode ser na forma de um verbo, pode parecer um objeto quando falamos sobre “deixar uma provocação na mesa”, pode ser uma maneira amena de dizer que você esperava algo a mais daquela situação ou pessoa. Provocação deve estar no Top 10 das mais tocadas em reuniões. O que me lembra um estudo que falava do efeito de alguns dos primeiros fãs do U2. São fãs muito fiéis, mas quando a banda começa a fazer sucesso para além daquele grupo, eles já acham que a banda não é mais a mesma. E procuram uma nova para ter aquele mesmo sentimento inicial. Eu ando viciado em provocação, mas estou largando aos poucos. Do mesmo jeito que tento me livrar da mania de falar “tchau, tchau”, porque acho estranho me despedir duas vezes das pessoas sendo que eu sou um só, e este um não é a Xuxa no final do programa.

Provocação no Rio de Janeiro era coisa séria demais. Uma leve fuçada no dicionário e chego às definições pela qual a palavra era mais reconhecida nos meus tempos de escola: “Fazer alguém perder a calma ou o controle; irritar, perturbar”; “Proferir palavras que possam atingir a dignidade ou a honra de alguém; afrontar, insultar”. Se alguém acreditasse que havia sido provocado, a cena que se montava era a do filme Te pego lá fora. Deus me livre de fazer provocação para os brucutus do colégio, verdadeiros Tonys Sopranos da máfia que tomava o lanche no recreio. Eles não entendiam mais de um sentido, não.

Há 40 anos, Rita Lee — a mulher que pavimentou tantas rotas para o futuro — cantava “não provoque, é cor de rosa choque”. Há 40 anos! Já outros cancioneiros percorreram pelo lado sensual da palavra provocar. Quando pesquisamos a ocorrência de “fazer uma provocação”, aparece a sugestão de como reagir diante de uma. A resposta é: mudar de assunto. O que funcionaria relativamente bem com os Sopranos da escola, mas que seria de péssimo tom em uma reunião.

A palavra provocação tem também o sentido de instigar alguém a aceitar um desafio, de estimular, incitar. O princípio é bom e tem sido usado em muitas discussões de trabalho. O cuidado é para não desgastar a palavra, banalizar, usar sem uma intenção verdadeira de mudar algo, porque parece ser esse o processo em andamento. Vamos estar nos provocando a usar provocação com moderação? Com esse gerúndio, vou-me. Tchau, tchau.

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