Conexão Austin

A delegação que ninguém conta

Entre o "SXSW paralelo" da IA Plaud e os Brand Worlds, o futuro é construir mundos, não campanhas

Fernando Figueiredo

Sócio e CEO da Bullet 18 de março de 2026 - 13h16

O Brasil tem 6.000 pessoas aqui.

É a segunda maior delegação do SXSW. Perde só para os americanos, que são donos da casa.

Seis mil brasileiros. Uma nação dentro do festival. Uma bandeira invisível fincada no coração de Austin.

Mas tem uma delegação maior do que essa. E ninguém conta.

Não tem crachá. Não tem bandeira. Não precisa de avião.

Chama Plaud.

Para quem não sabe: o Plaud é um dispositivo de gravação com IA que captura tudo, processa tudo e devolve tudo transformado. Podcast. Infográfico. Relatório. Resumo executivo. Em tempo real.

Com o sotaque que você quiser.

Aqui no SXSW, existe um grupo de Plaud. Silencioso, discreto, letalmente eficiente. Cada palestra vira conteúdo tratado antes do próximo painel começar.

Enquanto você está no corredor tentando achar uma tomada, eles já publicaram.

Isso, somado à transmissão ao vivo da palestra de Steven Spielberg — com múltiplos venues de exibição espalhados pela cidade —, criou algo que ninguém planejou: um SXSW paralelo.

O Convention Center foi demolido. O Hilton herdou o caos — não é um convention center, mas virou um. O Thompson, o Austin e o JW Marriott seguem como devem: espaços que respiram, onde ainda dá pra pensar.

Mas pensa comigo: imagina quantos Plauds estão no bolso de cada pessoa aqui.

A mesma pessoa sentada numa palestra sobre inteligência artificial está, ao mesmo tempo, fuçando o conteúdo de três outras que não conseguiu assistir. O Plaud faz o resto. Captura. Processa. Entrega.

Uma pessoa. Cinco palestras simultâneas. Presença física em uma, presença inteligente em todas.

E aí vem a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: daqui a pouco, pra que vir a Austin?

A resposta, por enquanto, ainda é: pelo corredor. Pela conversa que começa na fila. Pelo acidente feliz que nenhuma IA ainda consegue simular.

Mas a distância entre as duas realidades está encolhendo.

Hoje assisti a um painel que vai mudar o vocabulário do nosso mercado.

“Brand Worlds are the Next Marketing Frontier.”

Não é metáfora. É arquitetura.

A tese é simples e devastadora: marcas não deveriam mais construir campanhas. Deveriam

construir mundos. Mundos com personagens. Com dados. Com agentes de IA que simulam comportamento humano antes de qualquer ideia ser lançada.

A frase que ficou: substituir decks por ambientes acionáveis.

Pense nisso por um segundo.

Não mais apresentações em PowerPoint para convencer cliente. Ambientes vivos, onde você testa, simula, pressiona, quebra — e só lança quando sabe que funciona.

É o homem e a máquina trabalhando juntos. Não a máquina substituindo o homem. Não o homem ignorando a máquina. Os dois, juntos, criando algo que nenhum dos dois conseguiria sozinho.

Essa é a delegação que vai durar.

Não a que veio de avião.

A que ficou.