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Porque mais médicos deveriam vir ao SXSW

Entre tecnologia e cuidado, o desafio é integrar precisão algorítmica e criatividade na prática médica

Ari Araujo

Professor da Faculdade Sírio-libanês e líder de inovação e pesquisa do Grupo Fleury 18 de março de 2026 - 13h00

Eu não venho da indústria criativa. Mas também não sou um médico padrão. A radiologia foi a primeira especialidade médica profundamente impactada pela digitalização da indústria da saúde, quatro décadas atrás. Nós radiologistas falamos sobre inteligência artificial (IA) desde quando este não era um tema dominante em qualquer grande conferência médica. E foi assim que a interface entre tecnologia e saúde fez parte do core da minha formação e se transformou no objeto de quase toda minha produção acadêmica.

Mas não foi nada disso que me trouxe à capital do Texas. Este é o maior festival de inovação e criatividade do mundo e não acredito haver uma sem a outra. Também não foi a maciça presença das grandes companhias farmacêuticas dentro do “health track” na programação oficial do festival, algo  já dominante  nas mesas e debates que costumo frequentar, que me fez cruzar o continente.

Vim porque acredito que os vertiginosos avanços tecnológicos e a precisão dos algoritmos não bastam quando falamos de cuidar de pessoas. Para sermos realmente inovadores na assistência à saúde – ou “move the needle” como dizem os americanos – nós médicos precisamos ser mais criativos.

Na era da IA, da automação e da repetição, é preciso lembrar que não há nada mais humano do que o ritmo, aqui definido como um estado da natureza onde repetição e variação coexistem em equilíbrio. O ritmo do coração, da respiração, do clima que nos desafia, do tempo do trabalho e do descanso, e de tudo aquilo que nos cerca sem nos ser exterior. Isso é mais do que repetição, é criação.

É do ritmo balanceado da vida – nem lento, tampouco acelerado – que emerge a criatividade em um conceito expandido. É por ela que nos comunicamos (inclusive nos relatórios médicos e laudos radiológicos), nos adaptamos e moldamos, no ritmo ordinário do nosso cotidiano, esse conceito ao mesmo simples e metafísico que chamamos vida.

Foi aqui em Austin que ouvi a vice-presidente de uma grande companhia de IA afirmar em tom de satisfação que mais da metade dos médicos americanos já usam rotineiramente ferramentas de transcrição automática de consultas ou de suporte à decisão clínica baseadas em IA. Eu, que me defino um entusiasta de longa data dessas ferramentas, pergunto a ela se isso não parece pouco diante de todo o potencial que essas tecnologias podem ainda nos oferecer. Ela, médica como eu, concordou. Esperaremos juntos para saber o impacto ainda não totalmente comprovado disso na vida de nossos pacientes. 

Para decifrarmos o real poder transformador da IA na saúde humana, vamos precisar entender antes como tantos vieses limitam a implementação de diferentes algoritmos na prática médica. Sem variação, esses algoritmos apenas captam a repetição, o que é algo pequeno diante dos infinitos ritmos que nos mantêm vivos. E haja criatividade para entendermos essa sinfonia em constante expansão.

Para sermos mais criativos, nós médicos precisaremos sair da fortaleza de nossa linguagem técnica, de nossas conferências monotemáticas e de nossas narrativas repetitivas para nos aproximarmos de outros profissionais versados em habilidades tão inerentemente humanas como pensamento crítico, colaboração e criatividade.

Foi no meio dessa diversidade de pensamentos e encontro de ideias que finamente entendi que criatividade é, em última análise, o jeito que a gente encontra de se apropriar da vida, E isso pode ou não passar por novas tecnologias, mas jamais irá se afastar do nosso mais primário e instintivo desejo de criar.