A IA só vai substituir quem deixou de ter repertório
Em Cannes de 2027 não estaremos falando sobre IA, e isso não é coisa minha
Que a inteligência artificial entrou no nosso dia a dia para transformar a maneira como trabalhamos, já não é novidade. Nos últimos três anos, praticamente toda conversa sobre criatividade girava em torno das mesmas perguntas: Qual é a melhor IA? Como usá-la para criar mais rápido? Como produzir mais? Ela vai substituir o profissional criativo? A ferramenta ganhou uma atenção além do que merecia. Mas uma coisa me chamou muito a atenção em Cannes é que a IA não foi o grande assunto do evento. Ela aparecia em praticamente todas as palestras, mas nunca ocupava o centro delas. Toda vez que era citada, alguém fazia questão de colocá-la no lugar que ela realmente ocupa: uma ferramenta que auxilia o profissional que planeja.
Foi exatamente isso que Hannah Elsakr, vice-presidente de GenAI da Adobe, fez. E confesso que ela conseguiu alugar um triplex na minha cabeça sem pagar um centavo. Toda a conversa foi centrada no ser humano como um ser em constante evolução e cheio de imprevisibilidade na maneira de viver, pensar e criar. Diferente da IA que foi treinada para pensar de uma forma previsível e que sempre segue um padrão. As redes sociais estão aí para comprovar aquilo que a Hannah disse: conteúdos todos iguais, tudo com a mesma cara, com a mesma maneira de escrever, com o mesmo roteiro, se bobear, até com a mesma arte. Isso mostra como a IA atrofia o nosso cérebro e nos leva ao lugar de ferramenta da IA e não de usuário. Se a IA reproduz os mesmos padrões, o ser humano (um ser pensante) sempre estará à frente. O que precisamos é voltar a pensar e fortalecer o cérebro, usando a IA como ferramenta de apoio.
Umas das frases que mais gosto de repetir e que tive a certeza que não estou pensando assim sozinho: repertório se constrói vivendo. A IA só vai substituir quem deixou de viver e pensar. Mas ela não viveu a sua infância, ela nunca pegou um metrô lotado na hora de pico na estação da Sé, nunca vendeu brigadeiro na escola para pagar a formatura, nunca viu a sua mãe improvisar para fechar o mês, nunca participou de um churrasco da sua família, nunca nem se apaixou. E é justamente dessas experiências que nasce um repertório. Desculpa aí, mas a IA nunca vai poder fazer isso!
Foi nesse momento que percebi que talvez o uso excessivo da IA seja a pressa por uma entrega que não é afetada pela vida. No fim das contas, a IA não foi inventada para criar por você. Ela foi feita para otimizar o seu processo e, para isso, o seu processo precisa existir. Ou seja, se tem pouca vida, ela não tem muito o que fazer. Se tem pouco repertório, ela traz aquilo que acha que você tem. A IA não é a vilã. Pelo contrário, é uma ferramenta. Talvez, o vilão seja o excesso de tela e a pouca vida que você tem vivido para criar.
Anota isso: em Cannes de 2027 não estaremos falando sobre IA, e isso não é coisa minha. Foi a própria Hannah quem disse. Não é porque ela vai desaparecer, mas porque cada vez mais o uso dela vai exigir uma estrutura. Se eu tivesse que resumir essa conversa em uma frase, seria: bota esse cérebro para malhar, pois sem ele você vai virar refém de algo que era pra ser só uma ferramenta de apoio.